Movimentos globais impactam estratégias de mobilização de recursos das organizações da sociedade civil no Brasil

Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Fazer uma leitura e escuta ativa do que está acontecendo no mundo e suas iniciativas mais emergentes e urgentes, lançando ações que estejam sintonizadas e tragam respostas a estes desafios, é movimento fundamental para as organizações da sociedade civil que queiram mobilizar mais recursos para suas causas.

Uma das janelas de oportunidades que as organizações podem lançar mão é a proposta trazida pela Agenda 2030, lançada pelas Organizações das Nações Unidas (ONU), em 2015, no qual convoca toda a sociedade a se engajar, nos próximos anos, na implementação dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Nessa agenda estão previstas ações mundiais nas áreas de erradicação da pobreza, segurança alimentar, agricultura, saúde, educação, igualdade de gênero, redução das desigualdades, energia, água e saneamento, padrões sustentáveis de produção e de consumo, mudança do clima, cidades sustentáveis, proteção e uso sustentável dos oceanos e dos ecossistemas terrestres, crescimento econômico inclusivo, infra-estrutura, industrialização, entre outros.

Sergio Andrade, diretor da Agenda Pública – organização responsável pela secretaria executiva da Estratégia ODS, coalizão que reúne

Sergio Andrade, diretor da Agenda Pública.

organizações representativas da sociedade civil, do setor privado, de governos locais e da academia com o propósito de ampliar e qualificar o debate a respeito dos ODS no Brasil –, acredita que essa agenda traz duas grandes oportunidades para as OSC.

A primeira delas é que os ODS criam um ambiente político favorável à defesa das causas das organizações, que muitas vezes encontram dificuldade de serem emplacadas na sociedade, e que, agora, podem ser apresentadas a partir de uma nova perspectiva, ampla e global. E, em segundo lugar, como os ODS trazem consigo prazos, indicadores e metas concretas, as organizações podem se fazer valer destes instrumentos para suas iniciativas realizadas em colaboração com empresas, governos e demais parceiros.

“Isso é muito animador, pois abre oportunidades para a busca de parcerias e financiamentos que estejam conectados com uma causa que é de mais fácil comunicação, para qual já existe toda uma mobilização”, ressalta o especialista.

E as parcerias – sejam elas públicas, público-privadas, privadas ou com a sociedade civil –, inclusive, são ponto crucial para a implementação dos ODS, já que um dos objetivos – o 17 – é justamente dedicado a incentivar e a reforçar o papel fundamental da colaboração entre todos os setores da sociedade, com a disponibilização de conhecimentos, experiências, tecnologias e recursos financeiros em prol do cumprimento das 169 metas estabelecidas.

Para as organizações da sociedade civil, há um amplo espaço a ser ocupado e construído nestas parcerias que precisarão ser realizadas, acreditam os especialistas. O setor empresarial e os investidores sociais, por exemplo, têm sido convocados, cada vez mais, a assumirem seu papel e responsabilidade nesta agenda global, e as OSC podem colocar à disposição da sociedade suas expertises e conhecimentos das causas.

Anna Peliano, coordenadora do estudo BISC.

“As parcerias são essenciais. Essa pode ser uma frente de interseção interessante para as organizações. Aquelas que se apresentarem como potenciais implementadoras de projetos alinhados aos ODS podem ter um campo de trabalho promissor de parceria com as empresas. Elas estão abertas a isso”, ressalta a socióloga Anna Peliano, coordenadora do estudo BISC (Benchmarking do Investimento Social Corporativo) – pesquisa anual, iniciada em 2008, resultado de uma parceria entre a organização da sociedade civil Comunitas e um conjunto selecionado de empresas.

A última edição do BISC, lançada no ano passado, inseriu justamente algumas questões sobre o tema a fim de subsidiar a reflexão e os debates acerca das possibilidades de conexão dos investimentos sociais privados à Agenda 2030. Os resultados indicaram que, apesar das discussões e ações ainda estarem se iniciando, há uma tendência das empresas incorporarem a perspectiva dos ODS seja na gestão de negócios ou na atuação social que desenvolvem diretamente ou por meio de institutos e fundações.

Em relação aos negócios, cerca de um terço delas já está trabalhando nessa direção e 43% pretendem fazê-lo no futuro. E, sobre a condução dos investimentos sociais privados, o cenário também é de otimismo. Cerca de um terço das empresas já busca incorporar a perspectiva dos ODS na sua agenda de atuação e, entre as que ainda não o fizeram, mais de 57% está aberta a explorar essa possibilidade.

Anna Peliano ressalta um aspecto interessante identificado pelo estudo. Quando questionadas em relação aos benefícios gerados pela integração dos investimentos sociais aos ODS, 60% apontaram como alto ou muito alto de retorno o fortalecimento das relações com as organizações da sociedade civil. “Ou seja, também há um espaço para ver essa aderência entre os ODS o fortalecimento das OSC. As empresas já estão começando a perceber isso. As organizações já trabalharam bastante com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e, agora, é um passo a mais com os ODS. Já têm experiência e devem aproveitá-la”, recomendou a especialista.

Outro estudo que tem mostrado a aderência cada vez maior das empresas ao tema e, portanto, oportunidade para a aproximação das OSC, é o “Integração dos ODS na Estratégia Empresarial – Uma Contribuição do Comitê Brasileiro do Pacto Global para a Agenda 2030”, lançado este ano pela Rede Brasil do Pacto Global. A iniciativa buscou conhecer os esforços e os desafios das 21 empresas do Comitê Brasileiro do Pacto Global – um pool de empresas e organizações responsável pela gestão da Rede Brasil – frente à implementação do 17 ODS.

Segundo a pesquisa, mais da metade das empresas (52,4%) já se comprometeu publicamente com os ODS e 60% reforçam que considerarão os ODS na gestão dos negócios dos seus institutos e fundações. O estudo identificou ainda a motivação das organizações para trabalhar com os ODS. De acordo com o material, fortalecer as relações com os stakeholders por meio de uma linguagem comum e criar novas oportunidades de negócios são os principais atrativos para a inserção da Agenda 2030 nas estratégias empresariais.

Financiamentos

Na prática, diversos investidores sociais já têm promovido ações nesse sentido, incorporando a perspectiva dos ODS nos seus editais de financiamento e apoio a projetos desenvolvidos por organizações da sociedade civil.

Este é o caso da 9ª edição do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social 2017, com inscrições abertas até o dia 31 de maio. Nesta edição, o Prêmio terá seis categorias nacionais: “Água e Meio Ambiente”; “Agroecologia”; “Economia Solidária”; “Educação”; “Saúde e Bem-Estar” e “Cidades Sustentáveis e Inovação Digital”, e uma categoria internacional “Água e Meio Ambiente, Agroecologia ou Cidades Sustentáveis”, destinada a iniciativas realizadas em um ou mais países da América Latina e do Caribe, e que possam ser reaplicadas no Brasil. Todas as categorias são relacionadas aos ODS.

Nessa mesma linha, o Instituto Embraer de Educação e Pesquisa, que está com inscrições para a sexta edição do Programa Parceria Social, ressalta em sua comunicação que se trata do primeiro programa do Instituto a estar alinhado com a agenda dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

Diversas outras iniciativas se espalham e se multiplicam nessa perspectiva no país e mostram a amplitude e as várias possibilidades de mobilização de recursos em torno da agenda global. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Social Good Brasil, por exemplo, estabeleceram um acordo para disseminar a agenda dos ODS junto às startups de impacto social. A proposta é que os negócios inclusivos e de impacto usem essa agenda para propor soluções aos desafios da sociedade.

Além disso, acaba de ser lançada no país a Plataforma de Filantropia, com a proposta de alinhar as estratégias de investimento social às grandes proposições colocadas pelos ODS e somar esforços para o cumprimento das metas estabelecidas.

Para o ano de 2017, por exemplo, a Plataforma prevê uma série de ações, inclusive a definição conjunta com os atores sociais que fizerem parte da iniciativa para definir quais linhas temáticas são estruturantes no país e às quais a plataforma deverá, portanto, endereçar sua atuação, com a realização de uma iniciativa de coinvestimento. As instituições interessadas em se engajar na plataforma podem entrar em contato diretamente com o PNUD: luciana.aguiar@undp.org.

Ação concreta

Filipe Páscoa, diretor de mobilização de recursos das Aldeias Infantis SOS Brasil.

“Eu vejo uma grande possibilidade de mobilizar recursos, não necessariamente dinheiro, nessa articulação e compromisso que será preciso existir da sociedade civil, das empresas e dos governos para construírem juntos o que se propõe os ODS. O impacto que estes três setores podem gerar articulados é enorme”, aposta Filipe Pascoa, diretor de Mobilização de Recursos das Aldeias Infantis SOS Brasil.

Em sua opinião, as organizações têm muita expertise nesse tema e devem apostar nisso, principalmente porque fizeram parte da construção dos ODS e de seus indicadores e metas. Este foi o caso justamente das Aldeias Infantis SOS, organização internacional que esteve envolvida nas discussões da elaboração da Agenda 2030, estando presente, inclusive, durante o lançamento da Agenda, em setembro de 2015, nas Nações Unidas.

Filipe lembra que esta é a agenda do momento e as organizações precisam estar em sintonia. “Os projetos sociais daqui para frente ou estão alinhados aos ODS ou ninguém vai mais doar, principalmente se forem empresas. As organizações vão precisar ter indicadores que permitam dizer que impactaram tais ODS, pois os financiadores vão precisar reportar isso nos seus relatórios sociais”, completa.

Diante deste cenário, a Aldeias avaliou a sua própria apropriação sobre a agenda global, assim como a experiência que acumulou ao longo de mais de 60 anos de história, e identificou a oportunidade de criar uma proposta de valor para esse tema, contribuindo de fato, além de mobilizar recursos para a organização.

Surgia assim uma nova iniciativa da Aldeias, em parceria com o Instituto Maurício de Sousa, para a criação de 18 gibis, que explicam o conceito e cada um dos ODS. O material educativo pode ser utilizado por empresas, prefeituras, escolas etc. que estabelecem parceria com a Aldeias. O projeto inclui ainda acesso a uma plataforma de ensino à distância da Aldeias com conteúdos exclusivos sobre a temática. Alguns parceiros – que já apoiam projetos educacionais da organização – estão tendo acesso ao material, como o McDonald’s, a prefeitura de Birigui (SP) e a organização Escoteiros do Brasil.

Uma nova plataforma também está sendo construído voltada para educadores, a fim de que possam utilizar os gibis em atividades em sala de aula.

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