Fundos independentes: os impasses para captar recursos

A filantropia tradicional e o campo dos investidores sociais brasileiros costumam investir em causas tidas como mais populares, como educação, saúde e meio ambiente.

Paralelamente a eles, há um grupo de fundos independentes que tem trabalhado para conquistar seu espaço e apoiar causas tidas, por muitos, como menos “simpáticas”, ligadas aos direitos humanos e à justiça social. É o caso da Rede de Filantropia para a Justiça Social, formada em 2009, atualmente com nove associados.

“Sentimos que juntos podíamos dialogar melhor com o outro grupo, da filantropia corporativa. Assim, unimos vozes que até então eram isoladas e pouco ouvidas, tornando-nos mais fortes dentro e fora do Brasil, onde também, aos poucos, estamos sendo reconhecidos como representantes da filantropia de justiça social do País, que vai muito além da filantropia empresarial, até então mais conhecida”, justifica Ana Valéria Araújo, Coordenadora Executiva da Fundação Fundo Brasil de Direitos Humanos, uma das associadas da Rede.

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Andrés Thompson, coordenador da Rede de Filantropia para a Justiça Social

Outra motivação que levou à formação do grupo, no período da chamada redemocratização do País, foi “a necessidade de promover e desenvolver esse tipo de filantropia, voltada à justiça social, muito diferente da visão assistencialista”, explica Andrés Thompson, Coordenador da Rede.

O número de ONGs focadas no tema cresceu muito naquela época, demandando um fundo de investimentos nacional para sustentá-las. Priorizar as pequenas e médias ONGs respondia à dificuldade que encontravam para acessar recursos, especialmente os internacionais que, comumente, apoiavam e apoiam as organizações de direitos humanos do Brasil.

Segundo Ana Valéria, “ao mesmo tempo, começavam a surgir fundos públicos nos níveis estadual e federal, que precisavam ser utilizados com cuidado, não se tornando única fonte de recursos para a sustentabilidade das instituições, a fim de garantir a autonomia das organizações já que o próprio governo acabava por violar direitos humanos em algumas situações. Vivíamos uma economia mais forte e a captação de recursos era favorável.”

Na época, e ainda hoje, os grandes investidores brasileiros não chegavam a instituições que trabalhavam pelos direitos humanos. Geralmente, empresas e organizações ligadas a corporações preferem investir em projetos próprios. Também mantêm uma postura mais conservadora, evitando correr riscos.

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Aurélio Vianna Junior, gerente de programas da Fundação Ford

A realidade dos fundos independentes que compõem a Rede reforça esse cenário. Uma parte do grupo ainda sustenta-se com apoios internacionais. Aliás, a própria Rede se mantém graças a investimentos de organizações de outros países e foi criada com o apoio dessas instituições. “Apoiamos a criação da Rede por considerar que fundos independentes, intermediários ou fundos comunitários cumprem um importante papel à filantropia brasileira e a organizações da sociedade civil, possibilitando o acesso de pequenas organizações aos recursos, além de atingir um ‘campo’ de organizações delimitado tematicamente ou territorialmente”, explica Aurélio Vianna Junior, gerente de programas da Fundação Ford.

 

 

Um cenário em transformação

Para mudar a postura das empresas é fundamental, segundo os associados da Rede, um amplo trabalho de advocacy.

Para Amália Fischer, Coordenadora Geral do Fundo Social Elas, que faz parte do grupo, a Rede tem se dedicado a mudar essa visão, promovendo o diálogo sobre parcerias entre empresas, organizações e poder público. “Alguns de nós trabalham em cocriação com empresas públicas e privadas que têm entendido o papel de fundos e fundações comunitários como intercessores entre movimentos, coletivos e organizações da sociedade civil e empresas, institutos e fundações”, acrescenta.

Outro impasse para envolver as pessoas nessas causas é o conceito deturpado sobre os direitos humanos. “Temos de educar a população. Para isso, a Academia precisa se envolver e construir mais conhecimento a respeito. Nesse sentido, estamos desenvolvendo relações focadas no nível superior. Sabemos que o momento político e econômico é bastante delicado, mas falar sobre isso, a justiça social, é mais do que necessário nestes tempos”, defende Andrés.

Ana Valéria comenta os resultados de estudos já feitos, que indicam a existência dessa deturpação do conceito nas gerações mais velhas, que presenciaram a ditadura, relacionando esses direitos com a defesa de presos políticos. “As novas gerações olham de outra forma e muitos grupos sociais, como as novas feministas, têm incorporado ao seu discurso defender os direitos humanos, que são os direitos de todos”.

No entanto, outro fator tem dificultado a captação de recursos para essa causa: não saber pedir. Segundo Ana Valéria, os fundos de investimento independentes nunca se preocuparam em prospectar as empresas e os indivíduos, já que, historicamente as instituições recebiam apoio de organizações internacionais. Para ela, o momento é outro: “Precisamos aprender como pedir para as empresas daqui e para as pessoas físicas. Por isso temos feito campanhas de mobilização para sensibilizar a população sobre o verdadeiro significado  de direitos humanos e a importância do trabalho das organizações da sociedade civil”.

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Ana Valéria Araújo, Coordenadora Executiva da Fundação Fundo Brasil de Direitos Humanos

Ana Valéria também acredita que esse trabalho levará certo tempo para alcançar pleno êxito, já que os detentores desses recursos são os mais velhos. “Mas sou otimista e acredito que podemos mudar as antigas percepções”, defende.

Outro impasse para captação é a visão que muitas empresas têm sobre investimento social, que não as deixa arriscar. “Os grandes investidores não falam nem apoiam iniciativas que tratem temas de direitos humanos, talvez pensando que isso possa comprometer a sua imagem. É uma causa que normalmente não faz parte dos objetivos corporativos”, justifica Andrés. Ana Valéria concorda e credita que as empresas permanecem em uma zona de conforto porque os direitos humanos estão atrelados a controvérsias, a organizações menores e isso tudo não encanta o investidor brasileiro. “O mundo corporativo de nosso país em geral é conservador e prioriza áreas inquestionáveis, como educação e saúde”.

 

Por uma cultura de doação

No processo conjunto de se criar uma cultura de doação no País, que amplie a participação consciente de doadores, sejam eles pessoas físicas ou o cidadão comum, os fundos independentes querem dar a sua contribuição. Para Aurélio Vianna, da Fundação Ford, a Rede tem muito a oferecer. “Ela tem fomentado a formação de uma cultura de doação no setor da filantropia brasileira, mostrando como é possível operacionalizar doações e, principalmente, com vistas a resultados. Além disso, e por reunir um significativo conjunto de fundos independentes, também serve como um grupo de aprendizagem, possibilitando troca de experiências de estratégias que também servirão a entidades filantrópicas”, explica.

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Amália Fischer, Coordenadora Geral do Fundo Social Elas

Para Amália, a contribuição da Rede pode mudar paradigmas, já que, segundo ela, a atual cultura de doação é paradoxal. Normalmente doa proporcionalmente mais quem menos tem. “Também essa cultura tem que sair da lógica da caridade e da religião e entrar na de transformação social, cidadania, direitos e justiça social. A Rede trabalha profundamente esses conceitos como objetivos a desenvolver e seus associados têm obtido inúmeros e incríveis resultados”, reforça.

Ana Valéria pontua a importância da troca entre a Rede e seus membros. “Mesmo sendo ainda nova, a Rede tem nos ajudado e nós ajudamos a Rede. Ela nos uniu, definimos objetivos comuns, conseguimos conquistar espaços para falar de nossa atuação em congressos e eventos que antes não frequentávamos, mostrando aos investidores outra opção para que seus recursos cheguem a organizações e causas que outros fundos não contemplam”, comemora.

Atualmente, a Rede de Filantropia para a Justiça Social passa por mudanças para fortalecer o seu trabalho, com planos e objetivos claros que pretendem aproximá-la ainda mais das empresas e pessoas, mostrando-lhes a importância das pequenas e médias ONGs nas transformações que repercutem no bem-estar coletivo. Também se mantém aberta a novos associados e a investidores que se sintam motivados a compartilhar essa tarefa. “A Rede é uma construção muito especial, feita com carinho e dedicação, com a ambição de ser um ator fundamental para dar visibilidade a outra forma de fazer filantropia no País”, conclui Ana Valéria.

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