Criatividade das ONGs: essencial para vencer a crise

Desde 2014, as organizações sociais estão enfrentando, assim como todo o País, a falta de recursos para a manutenção de seus projetos. A queda considerável de contribuições, sejam de pessoas físicas como as de empresas, afetou diretamente a realidade dessas instituições.

Uma das alternativas adotadas no Brasil para driblar a escassez de recursos sociais, especialmente a partir de 2015, foi o financiamento coletivo, também conhecido como crowdfunding. Em 2013, essa modalidade de captação captou U$ 6 bilhões no mundo todo. Em 2014, mais que duplicou, somando US$ 16.2 bilhões – um aumento de 167%. Projeções internacionais indicam que, até 2025, esse montante pode chegar a US$ 90 bilhões, sendo o Brasil o detentor de pelo menos 10% do valor (site Filantropia).

Em 2015, a Associação para Desenvolvimento, Educação e Recuperação do Excepcional (Adere) foi uma das instituições que adotou o crowdfunding, obtendo significativo sucesso. No entanto, essa iniciativa estava inserida em um novo momento da instituição, iniciado em 2014, quando, diante dos desafios econômicos que começavam a despontar, assim como as mudanças no cenário das organizações sociais, a gestão da instituição percebeu que era preciso atualizar-se, conectando-se aos novos tempos.

Para isso, a Adere contratou consultorias de gestão institucional e financeira, afinadas com a causa e as necessidades da instituição, que, trabalhadas em sintonia, deram origem a um plano estratégico, a partir do qual surgiram ações para agregar mais eficiência ao trabalho. Paralelamente a essa reorganização, formalizou-se o entendimento da necessidade de se incrementar as atividades de geração de renda, para que garantissem maior autonomia.

Uma das bases utilizadas para isso, que já era uma prática do dia a dia, foi o conceito de sustentabilidade ambiental, ou seja, o reaproveitamento de materiais para a manufatura de produtos (cipó, hashi, lápis de cor, aparas de papel, retalhos, pedaços de madeira e couro etc.), construídos nas oficinas pedagógicas dos jovens com deficiência intelectual que frequentam a instituição. As peças criadas agregam valor, representado na criatividade dos atendidos, responsáveis por uma etapa da produção.

“Os objetos e acessórios produzidos nas oficinas, e finalizados na nossa marcenaria, até então eram vendidos informalmente por nossos amigos e parceiros. Tudo o que captávamos ia para os projetos. Percebemos que tínhamos de otimizar essa produção para criar outras alternativas de geração de receitas, complementares aos convênios com o poder público e às doações de pessoas físicas e jurídicas. Foi assim que surgiu nosso primeiro ‘negócio social’”, conta Soeni Sandreschi, Coordenadora Institucional da Adere.

Quiosque da Adere
Quiosque da Adere

Depois de uma experiência mais modesta de comercialização dos produtos no Shopping Ibirapuera, há 15 anos, a Adere resolveu investir, em 2014, nesse nicho, expondo seus objetos utilitários e acessórios de decoração em uma loja cedida pelo shopping, no piso Campo Belo, por dois meses. Já se passaram dois anos e a loja continua em funcionamento.

O sucesso abriu outras portas. Atualmente, a Adere também mantém dois quiosques (um no Shopping Center Norte, em parceria com o Instituto Center Norte) e outro no Shopping Lar Center. Aliás, é nele que a instituição inaugurou, em janeiro de 2017, a Galeria Adere, espaço de 170 metros quadrados, doado pelo Shopping, para expor os produtos e outros trabalhos dos atendidos, realizar palestras, workshops e oficinas abertas, com reversão de recursos à organização, além de fortalecer a instituição para conseguir novos parceiros.

“A galeria também traz para a cidade de São Paulo um novo conceito de loja social, onde as pessoas poderão desenvolver sua criatividade e muitas outras habilidades, além de apoiar uma causa”, explica Soeni.

Em 2016, o valor obtido com a venda de produtos Adere foi responsável por um terço de toda a receita da organização.

União que faz a força – e os recursos

Em Itatiba, cidade do interior de São Paulo, com pouco mais de 100 mil habitantes, a crise também afetou as doações individuais e a parceria das empresas sediadas na região.

Mesmo pequeno, o município conta com várias ONGs e associações que assumem diferentes causas, desde o desenvolvimento de crianças e jovens, com ou sem deficiência, acolhimento a idosos e o trabalho com dependentes químicos, até a preservação do meio ambiente e o cuidado com animais abandonados.

Padre Tarcísio, conhecido pelos moradores locais, juntamente com outros líderes comunitários, fundou, em 2002, a Associação das Entidades Assistenciais, Sociais e Filantrópicas de Itatiba (AEASFI). Por muito tempo, ela permaneceu inativa. Mas, em 2016, depois de ouvir as queixas das ONG sobre a falta de recursos, ele resolveu retomá-la.

Convocou as mais de 20 instituições itatibenses para uma reunião, onde incentivou a união de todas para superar a crise econômica. “Vamos partilhar os bens e os recursos humanos, criando uma rede de solidariedade. Temos de nos unir e divulgar para a população que existimos em função de causas que, de alguma forma, irão atender cada cidadão, já que nosso trabalho é por uma cidade melhor”.

A ideia é realizar eventos comuns para arrecadar fundos, oferecer capacitações e compartilhar fornecedores: “Temos de identificar gráficas, agências, supermercados… O que for preciso para continuar nossos trabalhos. Vamos pedir preços diferenciados a esses parceiros para que atendam as nossas necessidades”, explicou, pontuando os três objetivos que a Associação quer alcançar com a participação coletiva: conseguir parcerias, mobilizar a sociedade para que assuma as entidades e ampliar o voluntariado.

A segunda parte do encontro focou na formação das lideranças. A Associação levou à reunião um consultor de gestão de projetos e um consultor de captação de recursos que expôs as diferentes formas de arrecadar doações.
Por último, todas as entidades foram convidadas a participar de um grande mutirão de arrecadação de alimentos não perecíveis, produtos de higiene e limpeza. Alguns outdoors e a parceria com os veículos de comunicação da cidade, além do trabalho de divulgação que cada instituição realizou, difundiu a iniciativa, realizada em outubro passado.

Mutirão em Itatiba, SP
Mutirão em Itatiba, SP

Representantes de todas as ONGs se reuniram em um sábado e se dividiram em equipes para cobrir os supermercados, parque da cidade, pontos comerciais e praças, estimulando as doações. “Foi muito bacana ver todas as instituições misturadas, os voluntários atuando juntos, pedindo a contribuição da população, que atendeu prontamente. Nunca tinha visto uma iniciativa assim, que deixasse de lado os interesses individuais e transformasse todas as causas em uma só”, conta Luiz Carlos Miguel, voluntário da Sociedade Itatibense para o Bem-Estar Social (Sibes).

O mutirão envolveu mais de 100 voluntários e arrecadou 5 mil quilos de alimentos e 12 mil itens de higiene pessoal e limpeza, além de recolher 1500 quilos de lixo eletrônico e 120 litros de óleo de cozinha usado.

No mês de novembro, a Associação, em parceria com a Associação Industrial e Comercial de Itatiba (Aicita), realizou o Café com a AEASFI, reunindo representantes das entidades e das empresas da cidade para conhecerem o trabalho de cada organização, na perspectiva de adotarem uma causa e/ou ser parceiras, oferecendo bens e serviços a preços diferenciados. Os organizadores esperam que os frutos da iniciativa sejam colhidos este ano.

O cofrinho que mobiliza

PORcausa é uma iniciativa criada pela ONG Base Colaborativa, que tem como objetivo cocriar projetos para fortalecer as organizações sociais.

A ideia surgiu há três anos para incentivar a cultura de doação, no Dia de Doar. Com a iniciativa, espera-se que as pessoas falem mais sobre seus hábitos de doar, postura importante para sensibilizar novos adeptos. A prática de contar sobre suas doações é pouco comum entre os brasileiros, realidade reforçada pelos dados da pesquisa Doação Brasil.

O velho e bom porquinho, em forma de cofrinho, é o símbolo do PORcausa. A pessoa ou instituição que o adquire pode costumizá-lo de forma lúdica, com o material para colorir que o acompanha.

O doador é orientado a escolher uma causa que o sensibilize e, depois, uma ONG que atue por ela. Tudo é feito livremente, com o objetivo de levar a pessoa a passear por um processo de conscientização e pertencimento. Também é estimulada a deixar o cofrinho em local visível para que outras pessoas o vejam e queiram saber de que se trata, ou seja, o doador também é um reeditor.

O projeto cresceu muito nos últimos anos, graças ao apoio de grandes empresas, como Citibank, ou ONGs, como a Fundação Abrinq, que adquiriram os cofres e os distribuíram a funcionários e prospects, respectivamente. Com essa ação, espera-se humanizar as corporações, promovendo a cultura de doação, de maneira mais livre.

Cofrinhos customizados por doadores
Cofrinhos customizados por doadores

 

 

“Pesquisas têm indicado que, no mundo corporativo, as pessoas rejeitam a ideia de ter de doar a uma causa pré-definida pela empresa. Por isso, o cofrinho acaba sendo uma maneira de sensibilizar os colaboradores, deixando-os escolher para qual ONG querem doar”, explica Sara Queiroz, da PORcausa, que complementa: “O cofrinho é um pontapé inicial, uma ponte entre as organizações e os doadores, especialmente com as pessoas que não costumam doar, porque acham difícil, burocrático. É uma forma simples de quebrar paradigmas”.

QUER SABER DAS TENDÊNCIAS EM IMPACTO SOCIAL E MOBILIZAÇÃO DE RECURSOS? CADASTRE-SE

mobiliza-fundo

Entre em contato e solicite uma conversa (13) 99715-7973 ou contato@mobilizaconsultoria.com.br