A hora de mudar: organizações sociais e especialistas indicam caminhos para se reinventar

A sociedade como um todo tem mudado, cada vez mais, a um ritmo frenético. Dia após dia, novos processos, tecnologias e serviços surgem para tentar responder aos também novos desafios que se instalam. Esse movimento, como não poderia deixar de ser, impacta as organizações da sociedade civil. Mas, será que elas estão preparadas para mudar? Afinal, qual é a hora certa de fazer um novo movimento? Há um tempo, um motivo, uma situação que diz: chegou a oportunidade para se reinventar?

Os momentos de crise, como o que vemos presente hoje no Brasil, sempre são um disparador para processos de mudança, principalmente pela falta de recursos e financiamentos, o que exige por parte das instituições buscar alternativas para continuar com seu trabalho. Mas, não são só eles que despertam o desejo nas organizações de encontrar novos caminhos. Os desafios sociais, ambientais e políticos também mudam e, portanto, algumas causas não se tornam mais urgentes, enquanto outras despontam como essenciais. Isso sem falar de novas formas de agir da própria sociedade, que exigem das organizações outras maneiras de dialogar, mobilizar e construir respostas.

Ilaina Rabbat – Instituto Amani crédito: Divulgação

“O que acontece é que as organizações mais antigas, que tinham segurança financeira, apoio de seus beneficiários e parceiros, acharam por muito tempo que não precisavam mudar, que era só seguir fazer o que estavam fazendo. Mas, quando a crise bate, seja vinda de fora, como temos agora, ou quando é algo de dentro mesmo, quando o fundador ou o principal mantenedor vai embora, elas não estavam preparadas. Por isso, o ideal não é fazer esse movimento de transformação só nos momentos de crise. Ao invés de ser reativa, a organização precisa ser proativa. Ou seja, esta abertura para a reinvenção deve fazer parte da cultura organizacional, ter uma predisposição à mudança. Não dá para pararmos. O tempo todo é preciso estar avaliando, testando e criando coisas novas. A inovação tem que fazer parte da organização, senão, ela morre. O mundo muda muito rápido”, pondera Ilaina Rabbat, co-fundadora e diretora executiva no Brasil do Amani Institute, organização que atua com inovação social.

Coragem para mudar

Esse momento de se reinventar tocou de perto algumas instituições, como a organização Recode, que até o ano de 2016 se chamava Comitê para a Democratização da Informática. Elaine Ribeiro, CEO da organização no Brasil, conta que a transformação que a instituição tem vivido nos últimos anos teve como principais disparadores a crise em 2010 e a sucessão na direção, quando ela assumiu a gestão no lugar de Rodrigo Baggio, fundador do Comitê.

“Foi nesse momento que olhamos para a organização e procuramos identificar os pontos críticos, aqueles de acupuntura mesmo, nos quais seria importante trabalharmos para radiar mudanças como um todo”, ressalta Elaine. O primeiro deles foi olhar novamente para a causa a qual a organização se dedicava e buscar o que tinha mudado em relação a essa demanda. “Quando o Comitê foi criado, a principal questão era a inclusão digital, ou seja, oportunizar o acesso das pessoas à tecnologia. Hoje, isso mudou, falamos em empoderamento digital. A ideia é, a partir do acesso e do uso, de forma ética e cidadã, o que é possível fazer para a transformação da sua comunidade. A pergunta é: qual o seu papel como agente de mudança a partir do uso da tecnologia?”, pondera a diretora.

Recode – crédito: Divulgação

Esse ‘novo olhar’ para a causa puxou também um movimento interno da organização de repensar os projetos e programas que desenvolvia. Segundo Elaine, o risco que boa parte das entidades correm é de criar projetos em função da captação de recursos que não conversam entre si, que não criam sinergia na equipe, e a organização começa a perder o foco da agenda de sua causa.“O que fizemos foi buscar uma integração entre os projetos para termos uma agenda mais única, integrada. E isso fez com que tivéssemos que estabelecer algumas renúncias também. Neste movimento, finalizamos importantes parcerias, inclusive, que tínhamos há anos, porque não agregavam mais. Chegou um momento que tínhamos mais de 40 projetos e, em muitos deles, estávamos só como operadores de outras causas e não a nossa. A renúncia foi um processo doloroso porque eram recursos importantes. Mas precisamos fazer para dar um foco na nossa atuação. Assumimos no Brasil a agenda jovem”, pondera.

Outro ponto fundamental nesse processo, segundo Elaine, foi promover mudanças na gestão das pessoas. A atuação de forma integrada e com foco na causa trouxe mais troca entre os profissionais, ganho em produtividade e eficiência para os processos. Hoje, a organização conta com 40 profissionais – eram 80 antes da crise, mas chegou a 20 no cenário mais desafiador –, que atuam em projetos com mais capilaridade. A organização passou a se conectar a outros atores além de organizações sociais – seu público prioritário –, como bibliotecas e principalmente redes municipais e estaduais de educação.

“Isso facilitou as parcerias e fez com que nossas ações tivessem mais alcance. Agora, nos vemos muito mais como uma organização conectora, que vai articulando redes. Agora, alinhamos muito o que fazemos para influenciar em políticas públicas”, ressalta a diretora. A organização atua com formações de gestores, professores e bibliotecários, para que eles possam multiplicar a metodologia em seus territórios e áreas de atuação, a fim de atingir três pilares centrais com a juventude: fortalecimento da autonomia no uso das tecnologias; desenvolvimento de habilidades sociais essenciais para o século XXI; e solução de problemas, especialmente sociais. São essas, inclusive, as bases do Movimento Recode – reprograme sua vida, seu entorno e o mundo – criado em 2015 pela rede do Comitê, que passou a ser o nome também da organização no Brasil.

Demanda que se amplia

Instituto C – crédito: Divulgação

O ponto de virada para o Saúde Criança São Paulo – agora Instituto C – foi o olhar atento para as demandas de seu território e dos desafios da causa, que fez com que a organização ganhasse uma nova razão social, inclusive.

A organização foi fundada em outubro em 2011, como uma franquia social da Associação Saúde Criança, criada pela dra. Vera Cordeiro, em 1991, inicialmente com o nome de Saúde Criança São Paulo. Desde então, passou a trabalhar com a metodologia Plano de Ação Familiar – PAF, desenvolvida pelo Saúde Criança, atuando com famílias que tenham uma criança com alguma doença crônica e vivam em vulnerabilidade social, encaminhadas por hospitais públicos de São Paulo.

O PAF é elaborado, em parceira com a família, por uma equipe formada por assistentes sociais, nutricionistas, psicólogos, psiquiatras e advogados, entre outros. Cada família é atendida, individualmente, a partir das suas necessidades e potencialidades, durante um período de aproximadamente dois anos. A proposta é que, por meio de diferentes ações, essas famílias construam sua autonomia, tendo consciência sobre seus direitos e deveres e, assim, possam oferecer um ambiente saudável para o pleno desenvolvimento de suas crianças e adolescentes.

“Ao longo dos anos, trabalhando em parceria com a rede socioassistencial, percebemos que poderíamos ampliar o nosso escopo de atuação. Sentimos que todas as informações que fornecíamos àquelas famílias eram incríveis e ajudava muito a mudar o rumo da vida delas. Porém, pelo PAF, só poderíamos atender crianças doentes. Discutimos internamente e decidimos que, para conseguir aumentar o nosso impacto e atender mais pessoas, deveríamos  mudar o sistema de governança. Assim, ao invés de sermos uma franquia social, passamos a licenciar a metodologia PAF do Saúde Criança e abrimos a oportunidade para novas famílias também participarem de outros projetos”, conta Vera Oliveira, fundadora da organização.

Assim, no dia em que o Saúde Criança São Paulo completou cinco anos, nascia o Instituto C – Criança, Cuidado, Cidadão, que passou a atender não apenas famílias com crianças doentes, mas também famílias que tenham crianças que por algum motivo não tenham seus direitos básicos sendo plenamente atendidos. Desde a sua fundação, a organização já atendeu mais de 370 famílias, em parceria com hospitais públicos como a Santa Casa de São Paulo, São Luiz Gonzaga, ITACI, GRAACC, ICr e IPQ – HC/FMUSP. Agora, a organização já está estabelecendo novas parcerias para começar a desenvolver novos projetos neste público mais ampliado. O Instituto, inclusive, vai ganhar uma nova sede, para que possa atender novas famílias, com iniciativas voltadas aos alunos com baixo desempenho escolar e crianças com risco de desenvolvimento, de zero a seis anos.

“Sem dúvida, partir de uma base testada, como a do Saúde e Criança, foi ótimo e evitou vários erros iniciais. Mas tivemos de olhar para São Paulo e ver as demandas atuais. E, aqui, uma grande questão é a falta de acesso das famílias à informação. A maioria não tem ideia de quais são os seus direitos e como acessá-los. Por isso, trabalhamos primeiro a autoconfiança das famílias, para, depois, começarmos os demais processos”, ressalta Vera.

Inovação e movimento

Inovar, como destaca a diretora executiva do Amani Institute, é mais simples do que parece. Afinal, inovar é o movimento que se faz para encontrar um modo melhor, ou seja, com mais impacto de fazer o que já se fazia, por exemplo. “Pode ser um novo processo, um novo serviço ou produto, que incremente e gere mais impacto. Mais isso requer muita abertura. Tem que estar disposto a mudar”, analisa.

E, para fazer esse movimento, Ilaina traz um possível caminho a ser seguido pelas organizações:

  • Passo 1

Aprofundar e se religar na organização. É preciso refletir e fazer as perguntas: Quem sou de fato? O que eu quero fazer? Quais são os nossos valores? Qual a nossa missão? Que legado eu quero deixar? E essa reflexão deve ser feita por todos da organização.

  • Passo 2

Se reconectar com a causa, com o desafio, com o problema com o qual a organização decidiu atuar: “Quando trabalhamos há muito tempo com um tema, passamos a achar que sabemos tudo sobre ele, que não precisamos mais ir a campo, ouvir as necessidades. E isso é perigoso. É preciso sentir de novo esse problema, de forma profunda e verdadeira, com um olhar novo, diferente, e isso implica um mergulho na causa, com um olhar mais humilde”.

  • Passo 3

Criar juntos, com os diversos stakeholders envolvidos, a partir de uma cooperação horizontal e sistêmica, a melhor solução para o atual problema que se quer resolver.

  • Passo 4

Testar essa nova solução em um projeto/iniciativa piloto, a fim de identificar os caminhos ou possíveis desafios que possam aparecer.

  • Passo 5

Medir o impacto dessa nova solução, observando o antes e depois.

  • Passo 6

Implementar a nova solução.

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