Voluntariado empresarial: um recurso a ser mobilizado

A maioria dos trabalhos voluntários, alguns anos atrás, restringia-se a ações pessoais e de pequenos grupos que, sensibilizados por uma causa, dispunham de tempo e conhecimento para atuar nas organizações. Esse cenário mudou e continua em transformação, especialmente quando falamos de voluntariado empresarial.

Há motivos para isso. As corporações se deram conta de que envolver seus colaboradores em causas sociais fortalece a marca junto ao público consumidor e desenvolve habilidades pessoais e profissionais da equipe, contribuindo a um ambiente profissional e uma sociedade mais saudáveis. Para Sílvia Troncon Rosa, gestora de Mobilização de Recursos, Comunicação e Voluntariado da ONG Habitat Brasil, “muitas optam pelo voluntariado porque essa visão social já faz parte de sua cultura. Outras porque é uma demanda dos próprios colaboradores”. André Cervi, co-fundador da ONG Atados, concorda: “essa procura tem aumentado para atender aos funcionários que, nas pesquisas de clima, demonstram o desejo de fazer alguma ação social corporativa”.

Um estudo realizado pelo Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial (CBVE), em 2012, identificou que 29,7% das empresas consultadas optaram pelo voluntariado para favorecer o desenvolvimento das comunidades no entorno de suas sedes. Já 20% delas dedicaram-se a melhorar a vida dos moradores locais e 18% foram motivadas pelo propósito de fortalecer sua imagem.

Da parte dos funcionários, a prática do voluntariado ajuda a desenvolver competências, como respeito a diferenças e liderança solidária, além de proporcionar a oportunidade de fazer parte de algo maior, que trará benefícios a terceiros, gerando satisfação pessoal e orgulho de fazer parte da empresa. Outro ponto, desta vez sob a ótica do mercado atual, é a valorização do trabalho voluntário na hora de selecionar um novo profissional para um posto de trabalho, já que ele traz na sua bagagem um diferencial de valores importantes para a atuação em equipe.

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Silvia Naccache, do CVSP

“Cada vez mais existe a atenção em reconhecer e valorizar o voluntariado. Além da Lei 9.608 de 1998, que regulariza esse trabalho em nosso país, uma das ferramentas hoje usadas para isso é a contabilização das horas que o voluntário dedica a uma organização social. Desde 2012, segundo Resolução CFC Nº 1409/12, de 21 de setembro, o voluntário é valorado pela atividade que realiza, um reconhecimento do recurso que a organização recebe, as horas que lhes são doadas, como se tivesse ocorrido o desembolso financeiro, declaradas nos balanços patrimoniais”, explica Silvia Naccache, coordenadora geral do Centro de Voluntariado de São Paulo (CVSP).

Oportunidade para as organizações

No tripé que sustenta o voluntariado empresarial ou corporativo estão as organizações da sociedade civil. No entanto, grande parte delas, embora ofereça espaço para empresas realizarem ações em suas instituições, ainda não as utiliza como forma de captar recursos.
Para muitas, a dinâmica se restringe a abrir as portas, disponibilizar a infraestrutura e a convivência (ou não) com os beneficiados, na expectativa de que tal relação possa trazer outros desdobramentos. Não há engano nisso, mas, talvez, um subaproveitamento da oportunidade, ideal para estreitar laços. Vale ressaltar que algumas corporações ainda encaram o voluntariado como um dia diferente para os frequentadores da instituição e funcionários da empresa, mas que a isenta de ônus, sem estabelecer parcerias ou aportar recursos.

O que as ONGs podem fazer é criar mecanismos que mudem esse olhar e passar a considerar o voluntariado como uma estratégia de mobilização de recursos e cultivo de relações com as empresas.

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Silvia Troncon Rosa, da Habitat Brasil

Essa prática é cotidiana em várias organizações como a Habitat Brasil, que atua para garantir moradias dignas à população de baixa renda, com mais segurança, acessibilidade e saúde, por meio da construção, reforma e reparo de casas. “Desenvolvemos o voluntariado corporativo há mais de dez anos no Brasil, realizando mutirões chamados de ‘brigadas’. A empresa financia as reformas e disponibiliza aos seus funcionários a oportunidade de participar dessa ação, atuando como ‘ajudantes de pedreiros’, com o objetivo de envolvê-los na comunidade que, muitas vezes, está no entorno da corporação. Em cada casa trabalham, normalmente, cerca de quatro ou cinco voluntários. Assim, se a empresa quiser levar vinte voluntários, vai beneficiar cinco famílias (casas)”, explica Sílvia Troncon Rosa.

Outra forma encontrada pela Habitat para potencializar o voluntariado em iniciativas maiores é incluir essa ação no escopo do projeto, podendo acontecer em vários momentos do processo e de diferentes formas: participação dos funcionários nas reformas, capacitações, ações de conscientização e fortalecimento das comunidades, por exemplo.

Estevão Siqueira é analista de voluntariado da Associação Social para a Igualdade das Diferenças (Asid Brasil), entidade que oferece uma metodologia de gestão para instituições filantrópicas (escolas e centros de atendimento) com foco no desenvolvimento da pessoa com deficiência. Ele acredita que o diferencial do voluntariado corporativo está em envolver a corporação nas transformações, por meio de seus funcionários, que aderem a causa e viram porta-vozes dela dentro e fora da empresa: “A corporação não coloca apenas o recurso no projeto que está patrocinando, mas participa de sua execução. Temos projetos de revitalização da escola, de cursos e coaching para diretores, mentoria para solucionar problemas… Tudo com a participação de voluntários. Essa doação de horas e conhecimento são recursos para as ONGs. Quando uma diretora de escola filantrópica teria condições de assistir aulas com um executivo financeiro de uma empresa que fez cursos em outras partes do mundo?”, pondera.

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André Cervi, da Atados.

Já a Atados atua em outra lógica, sendo ponte entre corporação e ONG, de acordo com os interesses de ambas. “Ajudamos a empresa a tirar o seu plano de voluntariado do papel. Para isso, fazemos um diagnóstico coletivo sobre o setor em que ela atua e de que forma pode se relacionar a uma causa social. Escutamos os funcionários para definir ações e identificar as instituições para essa parceria. A relação empresa-ONG gera um custo: a empresa paga um determinado valor e uma parte desse valor é repassado à ONG com o objetivo de valorizá-la e mostrar que estamos atuando juntos. Também acreditamos que a empresa precisa reconhecer a importância de uma organização que abre suas portas. Por isso, a contrapartida com os recursos é uma forma de fazer isso”, explica André.

Os resultados podem ser bastante positivos. No caso da Habitat Brasil, segundo Silvia, “do total de recursos que arrecadamos com as empresas para nossos projetos, 80% provêm do voluntariado corporativo”.

Além dos cifrões

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Estevão Siqueira, da Asid Brasil

Para Estevão, da Asid, um equívoco é enxergar as empresas apenas como cifrões, creditando todos os problemas da ONG à falta de recursos. Segundo ele, existem questões mais delicadas que atrapalham a sustentabilidade: “Pelas análises que fazemos, identificamos que há outros impasses bem mais complexos, como a má gestão e o uso inadequado dos recursos. Tentamos mostrar às instituições que a empresa não é só dinheiro e que ela é parceira e colabora para fortalecer a organização, ao mesmo tempo em que a ONG transmite aos funcionários voluntários valores essenciais a sua formação pessoal e profissional”, defende. E complementa: “É importante lembrar que o terceiro setor está cada vez mais se profissionalizando e essa troca é muito importante para que as organizações avancem.”

Alguns paradigmas ainda precisam ser quebrados e essa é a tarefa das instituições, investindo em planos bem estruturados e factíveis. “Na nossa experiência, percebemos que é mais fácil que empresas de São Paulo entendam a importância de relacionar o voluntariado com doação de recursos, e que essa consciência ainda precisa se desenvolver em outras regiões”, reforça Silvia, da Habitat.

Formas de realizar uma estratégia organizada existem. Uma delas são as associações que se dedicam a capacitar pessoas e organizações para isso, como a CVSP, por meio de cursos sobre técnicas para coordenação de grupos voluntários e projetos sociais, além da disponibilização gratuita de uma gama de materiais sobre o tema no seu site. “Qualquer programa de voluntariado precisa ser bem planejado, porque se está lidando com pessoas e com aquilo de mais precioso que possuem e que irão compartilhar: seu tempo, sua energia, seu trabalho, sua alegria e seus talentos”, conclui Silvia Naccache.

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