Roda de Conversa e publicação da Coleção Mobiliza promovem reflexões sobre organizações conectadas

O que são organizações sociais conectadas? O que elas têm em comum? Qual sua contribuição para o desenvolvimento sustentável do Brasil? Foram muitas as questões que nortearam a Roda Conversa organizada pela Mobiliza, realizada no último dia 21 de junho, na sede do Instituto Amani, em São Paulo. O encontro marcou o lançamento da primeira edição da publicação, que faz parte de uma série de fascículos dedicada a discutir temas relevantes do campo das organizações da sociedade civil brasileiras. O evento contou, ainda, com o apoio da organização Sementeira Inovação Social, da empreendedora Patricia Santin, que contribuiu com o diálogo moderando parte do evento.

 Participaram do bate-papo Adriana Ramos, coordenadora do Programa de Política e Direito Socioambiental do Instituto Socioambiental (ISA); Clésio Sabino, diretor da Associação Bem Comum; Marisa Villi, diretora-executiva da Rede Conhecimento Social e Marcel Fukayama, empreendedor social e co-fundador da Din4mo. A plateita também ditou o tom da conversa, contribuindo com dúvidas e provocações sobre os temas que apareciam na conversa.

Rodrigo Alvarez, sócio-diretor da Mobiliza, abriu os trabalhos contando o processo de confecção da publicação e de planejamento do evento. “Foi um trabalho muito rico, de muitas conversas, com várias pessoas que pensam e ajudam a transformar nosso campo. No fim, o assunto transbordou.”

Na sequência, propõe uma rodada de apresentação e joga a primeira – e talvez uma das mais complexas – questões da noite: por que as organizações da sociedade civil são tão importantes no contexto atual do Brasil?

 

Marisa Villi, da Rede Conhecimento Social, trouxe para conversa o caso da organização onde trabalha e o movimento que vem fazendo para reinventar sua história. A gestora explica que a Rede – uma organização sem fins lucrativos comprometida com a produção compartilhada de conhecimento – nasceu a partir de um grande desinvestimento do Instituto Paulo Montenegro e que, aos poucos, tem descoberto formas mais inovadoras de atuar (e de mobilizar recursos). Sobre a pergunta da abertura, reconhece que não existe fórmula ou uma resposta única. “Estamos aqui para problematizar, colocar perguntas, provocar o pensamento.”

 

 

Clésio Sabino, da Associação Bem Comum – organização que atua há 15 anos com ações voltadas a promover o acesso a repertórios para jovens da periferia de São Paulo -, lembra que o país passa por um momento de turbulência e que as OSC podem ajudar a construir novos caminhos para o futuro. “Vivemos um contexto [político-econômico no Brasil] muito dramático. Nosso papel, como organização social que circula por diversos espaços, é pensar alternativas [para o país].”

Outra convidada que ficou provocada com a questão de abertura foi Adriana Ramos, do ISA. Representando um perfil de organização mais tradicional, com reconhecida trajetória no campo social brasileira, a gestora fala que é preciso ter calma para fazer a leitura do cenário e força para agir. “O momento é sensível. A agenda ambiental e a de direitos humanos são as mais impactadas hoje no Brasil. Não são as lideranças que nos trouxeram até aqui que vão nos apontar a saída [da crise].”

 

Fechando a rodada, Marcel Fukayama, da Din4mo, comentou o apoio que uma organização como a sua, tão comprometida com o tema da inovação, pode oferecer. “Nossa maior contribuição é pensar políticas públicas que alterem estruturalmente as empresas, que constituem um ambiente bastante contaminado por esforços de corrupção. Queremos pensar negócios que ajudem a reduzir desigualdades.”

 

 

 

 

Governança, processos e modelos de financiamento

 Muito tem se falado – e esses são alguns dos achados da pesquisa destacados na publicação – sobre a estrutura e a forma de atuar das organizações contemporâneas. Em geral, elas são mais flexíveis, menos hierárquicas e têm a comunicação na essência de sua estratégia. E mais: estão em busca de novos modelos de financiamento para suas causas e para garantir sua sustentabilidade institucional.

Adriana conta que este foi um processo encampado pelo ISA nos últimos anos. “Tem sido um grande desafio buscar filiados para nossas ações. São estes apoiadores que dão representatividade pública ao nosso trabalho. Esse processo [de estruturar sistemas de apoiadores individuais] foi muito complexo. Afetou muito nossa comunicação, especialmente em termos de linguagem nos espaços digitais. Somos preciosistas por natureza e precisamos aprender a nos popularizar [em termos de estilo], mas sempre tomando o cuidado para nossa comunicação não permitir qualquer interpretação preconceituosa sobre determinado tema.”

O fortalecimento de sua presença e mobilização em ambiente digital, em especial, nas redes sociais, foi particularmente educativo. “A maior novidade pra gente foi o encontro com os tais haters [termo usado na internet para classificar pessoas que postam comentários de ódio ou crítica sem muito critério]. Quanto mais seguidores [nas redes sociais] sua organização conquista, mais você se depara com o que há de pior na internet.”

Partindo da comunicação para a forma de constituição e governança das OSC, Clésio provocou uma reflexão sobre a forma de atuação de algumas organizações e coletivos, especialmente localizados nas periferias das grandes cidades. “Apesar de atuarem muito na informalidade, estes organismos possuem uma grande capacidade de contribuir com o campo da inovação.”

O educador e gestor da Bem Comum chama a atenção para a estrutura muito engessada das organizações. E lembra que isso também tem a ver com exigências dos financiadores, que, muitas vezes, demandam uma enorme capacidade de gestão e prestação de contas.

 

Valores, pessoas e construção de relacionamentos

“É preciso olhar para o sujeito com a disponibilidade para ouvir o que ele tem a dizer”, destacou Patricia Santin quando o debate se voltou para o tema ‘pessoas e construção de relacionamentos’. Usando como gancho o trabalho desenvolvido pela Bem Comum, ela explicou que as OSC do século 21 são aquelas conectadas com seu público.

Marisa aproveitou o gancho para colocar na roda o tema das parcerias e da cooperação entre pares. “Existe, entre muitas organizações, um medo de serem copiadas. Outro fator é o vício entre as OSC de trabalharem sozinhas. Na Rede Conhecimento Social adotamos um modelo de produção de conhecimento que já nasce de forma compartilhada. Uma das metodologias é a PerguntAção, ou seja, o grupo produz coletivamente o processo de diagnóstico junto com o público sujeito da ação. Eventualmente, temos dentro do processo executivos e crianças participando juntos. A ideia de pensar sozinho está perdendo lugar.”

 

Negócios sociais ou filantropia clássica: existe espaço para colaboração?

Conduzindo a conversa para as diferenças entre as organizações sociais inovadoras e as tradicionais, o diálogo levantou uma importante questão: modelos muito diferentes de atuação podem ocupar espaço no campo social.

Marcel Fukayama tentou descrever o cenário atual voltando um pouco na história. “Com a crise de 2008, as fontes de financiamento secaram. Filantropos do mundo todo começaram então a olhar para outro campo: o investimento de impacto. Mas não dá pra todo mundo fazer o movimento da filantropia clássica para o modelo de negócios de impacto de uma vez. Isso estrangularia o campo. Existe espaço para muitos modelos, são diversos tons de cinza.”

O empreendedor social avalia que as organizações da sociedade civil podem e devem escolher o modelo financeiro que melhor lhe cabe e atuar em parceria. “Acho que existe uma enorme oportunidade de colaboração entre diferentes formatos de OSC. É uma agenda que deve crescer muito nos próximos anos.”

E para co-criar, colaborar, cooperar – só para ficar nos termos da moda – é preciso rever processos, modelos de governança, de gestão de pessoas e de financiamento e comunicação com os públicos. Ou seja, é preciso inovar, explorar novas (ou antigas) formas de intervir em seu meio.

Adriana contribui com a reflexão dizendo que a reinvenção também pode vir do olhar para a história. “Inovar é também olhar para o que é tradicional e reinterpretar modelos. Por exemplo, uma roda de conversa, como esta que estamos fazendo aqui hoje, é uma inovação se comparada ao formato de palestras, comuns em evento. Mas, em comunidades indígenas, isso é rotina, é tradição.”

Marcel concorda: “O que estamos construindo aqui pode gerar resultados só no longo prazo. Mas, para termos sucesso, temos que olhar para trás e também projetar o futuro. Criar modelos de financiamento também é criar novos mercados. Temos uma enorme possibilidade de pensar soluções frente a tantas demandas sociais. Será bem sucedido quem souber criar novos mercados e inovar em processos e modelos de negócios.”

Para Rodrigo Alvarez, o evento, mais do que encerrar qualquer discussão ou checar a conclusões estanques, contribuiu com reflexões relevantes para um ecossistema marcado por constantes transformações.

 

A publicação Organizações Sociais Conectadas – Tendências e Desafios para o século XXI já está disponível online. Baixe aqui.

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