O paradoxo da cultura de doação no Brasil

desigualdade-socialNunca vivemos um momento tão propício para o crescimento da cultura de doações no Brasil. E, ao mesmo tempo, nunca vivemos um momento tão complexo para que isso acontecesse.

Vamos às razões para acreditar que o momento é propício:

  1. Nunca tivemos tanta riqueza acumulada, tanta gente ascendendo à classe média e alta. Se acreditarmos que a cultura de doação tenderá a crescer na medida em que cresce o acúmulo de riqueza, podemos crer que parte dessa riqueza acumulada poderá se transformar em investimento social;
  2. No barômetro da confiança brasileira de 2015 – pesquisa global realizada pela Edelman – as ONGs subiram 7 pontos em relação ao ano anterior (sendo confiáveis para 70% da população) e recuperaram o segundo lugar em termos de confiança da população brasileira, perdendo apenas para as empresas (com 73% de confiança) e superando a mídia (56%) e governo (37%);
  3. O Movimento por uma cultura de doação e o próprio termo “cultura de doação” ganharam espaço no cenário do investimento social brasileiro. O Movimento conta com 1.191 pessoas cadastradas em sua página no Facebook (em 8/9/2015) e avança em iniciativas bem concretas, como o Dia de Doar e um programa de educação para doação;
  4. O crescimento do uso de novas tecnologias para comunicação e para incrementar a doação, como o crowdfunding, as redes sociais e o celular, que democratizam o acesso de pequenas e médias organizações da sociedade civil a ferramentas de baixo custo e alta capacidade de atingir nichos de mercado ultra específicos;
  5. O protagonismo de alguns financiadores, como o Instituto Arapyau, Ford Foundation e Open Society Foundations em investir no fortalecimento institucional e no crescimento da capacidade de mobilizar recursos das organizações da sociedade civil;
  6. A ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos – passa por um estágio de profissionalização de seus quadros, depois de 15 anos atuando em bases voluntárias. Há uma mudança em seu modelo de governança em curso, buscando garantir uma equipe profissional e a mudança no papel de seu Conselho Diretor, que passaria atuar de maneira mais estratégica. Com o fortalecimento da ABCR, espera-se que amplie a profissionalização da atividade de captação/mobilização de recursos no Brasil;
  7. A criação de um Fundo  para fortalecer a estrutura que melhore o ambiente de doações no Brasil. O fundo seria formado por 1% do investimento social de Fundações/Empresas que realizam doações no Brasil e está sendo liderado pelo GIFE. O recurso seria utilizado para iniciativas que possam aumentar o engajamento das pessoas e fortalecer a cultura de doações institucionais e viabilizar medidas estruturais no setor (como a realização de pesquisas, mudanças regulatórias etc);
  8. A iminência da realizacão de uma pesquisa ampla sobre doações individuais no Brasil, por iniciativa do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, com apoio do Movimento por uma cultura de doação e do Instituto Arapyau;

Agora os motivos para acreditarmos que o momento atual é negativo para o crescimento da cultura de doação no Brasil:

  1. A crise econômica e política na qual estamos imersos no Brasil é talvez um dos fatores que mais pode atrapalhar o crescimento da cultura de doação no Brasil. Especialmente as doações da classe média (que costuma “puxar” a fila do crescimento da cultura de doação) são mais sensíveis a crises como a que estamos vivendo;
  2. Apesar de ser uma crise que coloca políticos e empresários como foco de corrupção, todas as instituições, nesse momento, acabam sendo vítimas da falta de confiança generalizada da população, inclusive as ONGs;
  3. O crescimento das empresas e consultores independentes de captação de recursos, estimulado pelas leis de incentivo brasileiras, que prevêem o modelo de comissionamento por recursos captados. Nada ilegal nesse modelo, mas o mundo inteiro segue um modelo distinto, que considera o profissional de captação de recursos como alguém da própria equipe, avaliado por seus resultados, mas remunerado em bases fixas, construindo relações com os doadores e parceiros no médio/longo prazo e fortalecendo as ONGs, e não os intermediários.
  4. Apesar de todo o fomento à cultura de doação, é notória a fragilidade da grande maioria das organizações da sociedade civil para solicitar recursos, implementar projetos com qualidade e prestar contas de maneira ágil e transparente. No final das contas, as doações precisam de organizações confiáveis na ponta, para receberem os recursos. Na falta de organizações dessa natureza, os próprios investidores passam a ser operadores de seu próprio recurso, fenômeno frequente entre os investidores sociais brasileiros. Não temos muitos motivos para crer que essa situação está mudando.

Só o tempo dirá se vamos sair da 90a. posição no World Giving Index (ranking da solidariedade mundial) e nos aproximar de posições mais confortáveis com o fato de sermos a 7a. economia mundial.

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