Mundo líquido: por que as ONGs e financiadores precisam ser mais flexíveis?

Lucia Nader*, ativista de direitos humanos, é fellow da Open Society Foundations desde 2015, com quem realiza a pesquisa “Organizações Sólidas em um Mundo Líquido”. Para isso, ela conversou com 102 lideranças de organizações não governamentais (ONGs), acadêmicos e financiadores da área de direitos humanos. Nesta entrevista exclusiva, Lucia compartilha as principais conclusões do estudo e alguns caminhos para que as instituições possam adaptar-se a uma sociedade cada vez mais conectada e politicamente envolvida em causas sociais.

 

Mobiliza – Lucia, conte-nos como surgiu a ideia de realizar essa pesquisa.
Lucia Nader – Atuo na área social há 21 anos, sendo os últimos 13 especialmente dedicados aos direitos humanos. Em 2015, dei início a essa pesquisa para explorar como as organizações sociais e os financiadores vêm se adaptando à sociedade contemporânea, tendo de interagir com três tendências: diversidade de atores e rapidez da informação; o papel político do indivíduo, que hoje defende a própria causa (ou causas) e nem sempre se envolve com organizações e movimentos; e a crise de representatividade do Estado e seu reflexo nas ONGs que orbitam em volta dele. Um exemplo concreto: as manifestações que aconteceram no Brasil em junho de 2013. Vimos ali várias agendas, indivíduos querendo falar por si só e uma ampla crítica ao sistema. No meio de tudo isso, qual é o papel das ONGs e financiadores que estão historicamente lutando por um país melhor?

Mobiliza – Você sente que as ONGs e os financiadores são afetados por esse novo contexto?
LN – Sim. Tenho percebido a ansiedade das instituições sociais em adaptar-se a essa nova conformação, porque existem muitas dúvidas de como lidar com temas antigos, tão sólidos e estruturais (suas causas) e, ao mesmo tempo, estar aberto ao novo, ser mais flexível etc. Por exemplo, essas mudanças impactam uma organização que trabalha a 15 ou 20 anos no combate à tortura e como? Foi isso que tentei descobrir com minha pesquisa. Uma das conclusões é que as organizações estão sentindo a necessidade de se planejar com mais flexibilidade, deixar espaço para oportunidades conjunturais ou imprevistos. Há também uma percepção de que é preciso arriscar mais, testar estratégias novas.

Mobiliza – A solidez pode se tornar um obstáculo…
LN – Ser uma organização sólida não é um problema. Normalmente isso permite realizar ações de longo prazo, com impacto, porque mantêm uma equipe qualificada, estratégias diversificadas e articulação com interlocutores variados. O problema é quando a solidez deixa a ONG hermética demais e muito pesada. Não só as ONGs, os financiadores também.

Mobiliza – Então, como quebrar essa rigidez excessiva sem perder o foco?
LN – É importante que as ONGs e os financiadores façam algumas reflexões e isso está começando a ocorrer. Por exemplo, avaliar se devem estar mais próximos da sociedade. Se a resposta for sim: como fazer isso sem se tornar refém da opinião pública, por exemplo, buscando oportunidades conjunturais para defender suas causas. Ou seja, estar mais antenado com o que acontece na sociedade e na política. Também podem pensar “fora da caixa”, lançando mão de estratégias diferentes das que estão sempre à disposição, envolvendo mais risco e inovação. Um terceiro ponto, muito importante, é analisar de que forma se relacionam com o público externo e interno, ou seja, os beneficiários de suas ações e as pessoas que atuam nas suas equipes. Trabalhar, por exemplo, em organizações de direitos humanos, é penoso, custoso, dolorido. As pessoas são movidas por um tipo de raiva gerada pela injustiça. Em alguns casos sentem culpa por serem privilegiadas. Frustram-se muito porque nem sempre os resultados esperados são alcançados. Ou seja, é preciso olhar para a saúde física e emocional desses indivíduos. Como manter a criatividade e a resiliência para que continuem trabalhando em ações que fortaleçam a causa? As ONGs sólidas precisam saber o que move as pessoas a erguer suas bandeiras e as consequências de tudo isso para suas vidas. Acredito que o modelo de financiamento seja um componente que influencia tudo isso.

Mobiliza – De que forma esse modelo interfere no bem-estar das pessoas e na sustentabilidade sadia das instituições?
LN – As ONGs que entrevistei são brasileiras, europeias ou norte-americanas e têm de 15 a 20 anos, porte médio, equipe fixa, financiadas, principalmente, por grandes fundações internacionais – como a Fundação Ford e Open Society. É uma relação complexa, porque as instituições correm o risco de se preocupar mais com sua perpetuação (conseguir recursos para sobreviver) do que com sua pertinência e seu impacto – como bem me disse um dos entrevistados. Normalmente, o financiamento é por projetos e em um período de um ou dois anos, amarrando-se a atividades que não se sabe se terão sentido no médio prazo e sem flexibilidade para mudar o que foi prometido. Se queremos nos adaptar ao mundo atual é fundamental que o financiamento seja de longo prazo e institucional, prevendo a possibilidade do erro para que possam inovar e se arriscar mais, sem medo.

Mobiliza – E isso é responsabilidade do financiador?

LN – Em grande parte, sim. A relação dele com a ONG é construída com base na confiança, na troca de experiências? Ele conhece a realidade da instituição? Há de alguma forma um incentivo para que as organizações ousem, caso queiram? O processo burocrático (relatórios etc.) está saudável ou toma mais tempo da organização do que desenvolver as atividades que se propôs? Tanto o financiador como a ONG tem, a priori, o mesmo objetivo: alcançar alguma mudança ou melhoria na sociedade. As respostas a essas perguntas são fundamentais para que isso não se perca de vista.

Mobiliza – Na sua opinião, quais mudanças podem ajudar as organizações sólidas a se tornarem mais flexíveis e aproximarem-se de seus públicos?
LN – Há vários pontos importantes. Por exemplo, a maneira como elas se comunicam. Hoje essa comunicação é de mão dupla, e quase imediata, especialmente nas mídias sociais. É importante aproveitar algumas grandes notícias para falar da causa de um jeito mais quente. Não é só o relatório institucional, que tem sua valia e público específico. Percebe-se que algumas instituições têm medo de perder o controle sobre a informação, de sua narrativa. Isso é natural. No entanto, pode ser algo benéfico porque as pessoas vão reproduzir a sua mensagem de um jeito novo, mais palatável, que talvez não siga as normas técnicas esperadas, mas que é uma maneira diferente de divulgar a causa. A inovação é uma palavra superinflacionada. Está na moda. Muitas ONGs torcem o nariz ao ouvi-la. Mas é uma realidade. Então, é importante que cada organização defina para si o que é inovar, no que ela quer inovar (processos, estruturas, estratégias, linguagem?). Não precisa ser só na ponta. Quem quer inovar tem de contar com uma equipe que acredite na causa, mas que não tenha receio de errar, de recomeçar, de correr riscos. Do contrário, a solidez vai persistir de um jeito hermético, distanciando a organização cada vez mais da atual realidade.

Mobiliza – Para quem quiser acompanhar a pesquisa e saber mais, onde procurar informações?
LN – Estou construindo uma séria de vídeos, de três minutos, que sintetizam os temas da pesquisa. Já tenho dois no Youtube. O primeiro explora as três tendências, que citei nesta nossa conversa. O segundo entra no tema da inovação. Também mantenho uma página no Facebook e escrevo em um Blog. Tem bastante informação para quem quiser se aprofundar.

*Lucia Nader é pós-graduada em Desenvolvimento e Organizações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po) e bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foi diretora da Conectas Direitos Humanos de 2011 a 2014.

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