José Luiz Setúbal: “Estou plantando uma semente”

O pediatra José Luiz Egydio Setúbal empreendeu um esforço para tornar o Hospital Infantil Sabará uma instituição não apenas referência na pediatria brasileira, mas também um núcleo de inteligência social para fazer a diferença na saúde das crianças.

Para isso, criou a Fundação José Luiz Egydio Setúbal, em 2010, com foco em dois grandes propósitos: de um lado, fortalecer o serviço de assistência em Centros de Excelência, cujo fim é privado; de outro, ampliar a pesquisa, ensino e conscientização, voltados a profissionais da área e público em geral, visando o benefício público.

Dr. Jose Luiz Setubal_2015_corteInstitucionalmente, como presidente, está debaixo de sua gestão o hospital privado, cujo compromisso estatutário é contribuir com parte de seu resultado líquido para a criação e consolidação do fundo patrimonial da fundação. Abaixo da Fundação também está o Instituto Pensi, uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) responsável pela parte da educação, ensino, pesquisa e projetos sociais da fundação.

Em entrevista à Mobiliza, o médico e filantropo José Luiz Setúbal, que também é provedor (presidente do conselho) da Santa Casa de Misericórdia em São Paulo, fala dos desafios de mobilizar recursos para a causa, em especial dentro da lógica de co-funding, o papel socialmente transformador de uma fundação voltada à saúde e o fato de seu trabalho ser a semente de um projeto para os próximos 50 anos. “Estou plantando uma semente e quem vai se sentar à sombra da árvore não vou ser eu”, brinca.

Mobiliza – Qual foi seu principal objetivo ao adquirir o hospital, tornando-o uma fundação?
José Luiz Setúbal –
Quando surgiu a oportunidade de me tornar sócio do Hospital Infantil Sabará, eu já o comprei com a ideia de usar seus dividendos para montar uma ONG que cuidasse de saúde infantil. Mas acabei sendo convencido que era melhor transformar o hospital em uma fundação, no qual o hospital seria um gerador de caixa pra ela.

No projeto da fundação, eu achava que conseguiríamos mais impacto se trabalhássemos tanto a educação, quanto a construção de um instituto de pesquisa, onde seriam levantados dados para subsidiar políticas públicas.

Eu brinco que esse é um projeto que eu não vou ver, porque para criar um instituto fora da academia, e que cause impacto, é um processo que leva 50 ou 60 anos. Então, não estou preocupado. Estou plantando uma semente e quem vai se sentar à sombra da árvore não vou ser eu.

Mobiliza- Por isso foi criado o Instituo Pensi?
José Luiz Setúbal –
Ele foi criado como OSCIP para atender a uma demanda que tínhamos para sermos elegíveis a algum fundo a partir de um projeto a ser financiado na área de pesquisa e voluntariado. Mais tarde, o instituto foi mantido porque, quem gerencia o hospital está interessado em gerar caixa. Quando mais recursos ele conseguir, mais dinheiro vai ao fundo patrimonial, mais vou investir.

Por isso decidi manter o instituto, que dá equilíbrio ao propósito privado e social dentro da fundação.

Mobiliza – Como um hospital pode promover transformação social?
José Luiz Setúbal –
Há muitas formas, mas pensamos, aqui, primeiramente na educação, que pode ser colocado de duas sabaramaneiras: a educação continuada de profissionais na saúde, trazendo o que há de mais atual para eles se atualizarem, e levar informações relevantes e embasadas para um público leigo, por meio de projetos sociais, conscientização.

Já na parte de pesquisa, ficou muito claro para nós pensarmos nas doenças do século XXI na infância, traçando quatro caminhos: nutrição e metabolismo (obesidade, anorexia, intolerâncias, por exemplo), doenças alérgicas e respiratórias (60% do movimento do hospital), doenças infectocontagiosas e imunização (vacinas) e doenças neuropsicológicas (transtornos de atenção, depressão, autismo). Quatro eixos de transformação social.

Mobiliza – Mas a Fundação encontrou uma causa que irá direcionar esses esforços…
José Luiz Setúbal –
Fomos sempre muito procurados por associações de doenças raras, que apoiávamos. Mas caiu no nosso colo a preocupação da Autismo & Realidade (organização social criada em 2010 por pais e profissionais em busca de conhecimento sobre autismo), criada por Marcos Mercadante, um psiquiatra importante na área, mas que morreu logo após instituir a organização.

Mas o conselho científico montado, formado por médicos que trabalham com o tema, é muito forte. E eu acredito que seja uma causa a ser desenvolvida. Vamos provavelmente ampliar um pouco esse escopo, na linha de educação e pesquisa, como nossa causa mais social. Um norte de nossas ações, apesar de também mantermos (paralelamente) a Autismo & Realidade.

Mobiliza – Como se estrutura o seu financiamento?
José Luiz Setúbal – O fundo ainda é virtual, pois o hospital deve a ele alguns milhões, pois está pagando o seu investimento aos bancos. Mas o conselho definiu a porcentagem do resultado do hospital que vai para o fundo, que deve ser de, no mínimo, 25%. Estipulou-se então que 5% do saldo total do fundo têm que ser aplicado em ensino e pesquisa.

Por isso que eu falo 50 anos! Porque, lá na frente é possível ter caixa para pagar o custeio de um professor, por exemplo, pois as agências de fomento (Fapesp e Capes, por exemplo) pagam a pesquisa, mas não seu levantamento. Assim, poderíamos dividir os custos para esses trabalhos.

sabara2Mobiliza – Mas o que está sendo feito até lá?
José Luiz Setúbal – Temos bancado as pesquisas, por enquanto. Na área de ensino a gente tem conseguido patrocínios, em especial para a educação continuada, com os simpósios e congressos. No ano passado, fizemos um para 1600 profissionais, cujo custo ficou entre 700 mil reais, com parte captado, parte de inscrição, dos quais sobrou R$100 mil. O objetivo não é gerar caixa, mas ajuda.

Além disso, o Instituto Pensi também presta serviços de educação continuada para os colaboradores do hospital, o que também colabora para pagar a sua estrutura.

Mobiliza – Mas há também um direcionamento ao co-funding?
José Luiz Setúbal – Quando estávamos estudando a criação de uma área de parcerias, eu brincava que seria difícil mobilizar recursos para uma fundação que leva meu nome. As pessoas poderiam pensar ‘mas ele tem dinheiro’. É um desafio, mas é factível de solucionar. Primeiro você vai mostrar que faz um trabalho sério, que tem estrutura. E, pela minha experiência, é muito mais fácil pedir para alguém uma parte do que o valor integral.

Se eu mostro um projeto de R$ 100 mil, mas digo que eu já vou pôr a metade, oferecendo estrutura ou mesmo recursos financeiros, fica mais fácil conseguir os outros R$ 50 mil . Porque eu também acredito, também estou assumindo um risco. A ideia da co-participação ou co-funding é essa.

Mobiliza – Nesse modelo, qual é o seu papel, como fundador, na captação?
José Luiz Setúbal – Posso até conhecer muito gente, mas eu sou uma pessoa mais introspectiva. Creio que uma das principais funções é abrir portas.

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