Inovação na mira de organizações sociais de pequeno e médio porte

Empreendimentos mais leves, dinâmicos e criativos ajudam a apontar caminhos para o futuro do campo social brasileiro.

Na órbita dos gigantes do chamado terceiro setor, observamos milhares de micro, pequenas e médias organizações que geram impacto social e começam a ditar tendências para o campo. Olhando pela perspectiva da potência e não da carência, é possível perceber que, sob a ótica da inovação, há muito conhecimento ainda represado nesse ambiente – e, por consequência, grandes oportunidades de troca e cocriação.

Independentemente da identidade assumida – organização da sociedade civil, negócio de impacto, startup social, entre tantos outros -, tratam-se de organismos mais leves e dinâmicos, que têm maior potencial de inovar e atender com agilidade aos desafios urgentes da nossa sociedade. São, por natureza e por necessidade – considerando a escassez de recursos em tempos de crise –, criativos e grandes forças motoras do campo social contemporâneo.

A inovação, como princípio que orienta a busca por uma ideia, método ou objeto que pouco se parece com padrões anteriores, está em diversos lugares de seu DNA e comportamento: novos princípios, metodologias, ferramentas, mídias, tecnologias sociais e, claro, estratégias de financiamento. Para tal, quebrar paradigmas, é imprescindível.

Rodrigo Alvarez, sócio da Mobiliza, comenta que existe algo em comum a essas organizações. Algo que vai muito além do seu CNPJ: o compromisso em canalizar esforços para pensar soluções capazes de atender demandas sociais e ou ambientais, sempre com um olhar sensível para os mais vulneráveis, para as desigualdades.

“Independentemente se é uma ONG de origem mais tradicional, um startup cheia de jovens engajados ou um negócio social de grande impacto, a inovação se esvazia de sentido se ela não estiver comprometida com uma resposta clara a um desejo da sociedade. Inovar não é apenas introduzir tecnologia em processos. Neste caso, é olhar de forma diferente para um problema urgente”, analisa.

Inovação e diálogo intersetorial

Uma característica dos tempos atuais, apontada por especialistas, é que os muros que separam os diferentes campos que formam uma sociedade estão cada vez mais baixos. Hoje, o campo social exerce grande influência sobre as empresas, que, por sua vez, dialogam o tempo todo com o poder público institucional, o qual precisa atuar o em constante parceria com a academia. Está tudo mais interconectado. E isso gera inovação para todos os lados.

Para Luiz Macedo, gerente-executivo do FGVcev – Centro de Excelência em Varejo da FGV EAESP, pesquisador do Programa Varejo Sustentável e professor do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, essa tendência se reflete em diversas áreas da sociedade, como na universidade e no setor privado. “Acredito que a academia e as universidades, de um modo geral, são instituições pulsantes, uma espécie de ‘viveiro de ideias e projetos’. Há uma sede dos jovens (millenials e geração X) por tecnologia e inovação em diversas áreas, inclusive na social.”

Luiz Macedo descreve a academia como um ‘viveiro de projetos’, com novas ideias, principalmente para área social, surgindo a cada dia.

O pesquisador observa que, quando olhamos para o universo crescente das startups, inclusive as de vocação social, ele, geralmente, mostra empreendimentos que traduzem o sonho e o desejo do próprio empreendedor. São respostas a uma pergunta que pouca gente deu bola quando estava na universidade, mas que alguém resolveu levar adiante, virando dias e noites para colocar no papel e, depois disso, levar do papel para a vida real.

“Ao longo da minha trajetória atuando em um centro de pesquisa da FGV EAESP – o Centro de Excelência em Varejo (GVcev) –, aprendi que a interação entre a academia, empresas, entidades setoriais, governamentais e ONGs traz um potencial de desenvolvimento conjunto fantástico. O compartilhamento de ideais, visões e as trocas de experiências práticas fazem com que sejam construídas pontes de aprimoramento do conhecimento interdisciplinar cada vez mais aberto, colaborativo e sinérgico. O aprendizado está nas conexões, nas parcerias entre diversos atores sociais envolvidos nesse processo”, avalia.

Para Luiz, a essência da inovação e do empreendedorismo está justamente nas pequenas organizações da sociedade. “Pequenas iniciativas sociais e negócios de impacto brotam de dificuldades cotidianas, que não estão ao alcance dos olhos dos executivos de carreira ou dos consultores especializados. O Brasil é um grande exemplo disso. Muito da nossa inovação aparece em meio à criatividade do cidadão comum. Como diz uma piada que circula na internet, ‘o brasileiro precisa ser estudado pela NASA’, por conta de sua capacidade de colocar em prática qualquer ideia maluca, projeto, negócio, produto ou uma solução para um problema social que ninguém imaginou.”

Inovação e educação que dá liga

Farejando o campo social, é possível descobrir milhares de iniciativas inovadoras que ainda não tem o peso e a estrutura de uma grande organização. Uma delas é a SomosProfessores.org, uma associação sem fins lucrativos que atua como plataforma de financiamento coletivo e vive um momento de transição: “Estamos começando a nos ver como uma startup social sem fins lucrativos”, explica Luiza Dantas, diretora-executiva da organização.

Essa revisão de posicionamento tem muito a ver com o porte do empreendimento e sua vocação para a inovação. “Nos identificamos com um modelo de trabalho mais dinâmico, aberto a novas ideias, e em busca de inovar e otimizar os processos com o apoio da tecnologia. Também temos uma equipe pequena, mas diversa, que cultiva o hábito de repensar a forma como estamos realizando nossas tarefas: se é eficiente o bastante, mas também se está conectada com o nosso propósito e gerando o máximo de impacto possível.”

Algumas pistas sobre o perfil desse tipo de organização: desejam ser leves, dinâmicas, abertas à tecnologia e profundamente conectadas com seu propósito.

 

Luiza acredita que nunca é tarde para mudar a maneira como uma determinada tarefa está sendo realizada. A diretora lembra o quanto já tiveram que se reinventar para responder a novos problemas, atender novas demandas. “Buscamos sempre aprender com os erros. A liberdade para errar e tentar novamente é, sem dúvida, uma grande potência desse modelo de trabalho. A outra é investir nas pessoas. Vimos que, se otimizamos nossa operação e a tornamos mais econômica, o segredo é apostar em valorizar e motivar nossos talentos.

Da Maré para todo o Brasil

Outro caso inspirador é o do Banco Maré, uma startup de impacto social, em um modelo montado de forma a levar melhorias significativas a pessoas e comunidades, de forma rentável e escalável para poder chegar a todas as partes do Brasil. Para Miguel Motta, analista financeiro do banco, o conceito de startup significa muito. “Nos caracteriza como uma empresa crescente. Partimos do zero, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, e estamos buscando escala.”

Miguel explica que o maior aprendizado nessa trajetória, como um pequeno banco em um mercado de gigantes poderosos, é o público-sujeito como protagonista da iniciativa. “O Banco Maré teve todas suas etapas de operação dentro do Complexo da Maré, construindo-se com o público e com a maior parte de sua equipe montada por moradores da Maré.”

Para saber mais

Nessa reportagem, por diversas vezes, você se deparou com o conceito “startup social”. Quer saber mais sobre mais essa denominação que marca presença no nosso ecossistema social? Recomendamos o livro “Social Startup Success: How the Best Nonprofits Launch, Scale Up, and Make a Difference”, de Kathleen Kelly Janus. A publicação está disponível na Amazon e à venda em algumas lojas brasileiras (apenas na versão em inglês).

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