Estudo projeta aumento significativo de doações da classe média até 2030

Cerca de 820 mil organizações da sociedade civil (OSCs) presentes em todo território nacional foi um dos dados inéditos que o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) apresentou no estudo Perfil das Organizações da Sociedade Civil do Brasil, lançado em abril deste ano. Quase 340 mil estão ligadas à defesa de direitos e interesses. Entre outras informações da pesquisa, que mapeou as entidades até 2016, a maioria está na Região Sudeste (40%), seguida da Nordeste (25%), Sul (19%), Centro-Oeste (8%) e a Norte (8%). Há, ao menos, uma OSC em cada um dos 5.570 municípios do país.

O estudo reúne materiais de diversas ordens (econômicas, sociais, geográficas, organizacionais e outros) que podem servir para que os setores público e privado identifiquem padrões das OSC, as principais finalidades de atuação, a lógica da destinação de recursos e outras características que ajudam a qualificar decisões.

A descoberta que mostra quase a triplicação do número de entidades brasileiras – o dado anterior era de 300 mil organizações –, amplia significativamente o espaço para as discussões e construção de diversos temas, entre eles cultura de doação, gestão institucional e acesso a recursos. Mobilizar doadores, sejam individuais ou corporativos, segue ainda um desafio, mas com boas perspectivas de avanços no Brasil e no mundo como veremos a seguir.

A força da classe média global

Ser voluntário, reivindicar direitos, filiar-se a organizações e sindicatos, expressar seu ponto de vista e participar da mídia cidadã e movimentos de base são iniciativas fundamentais para o exercício pleno de cidadania, para gerar um sentimento de pertencimento aos espaços. Porém, uma sociedade civil capaz de enfrentar alguns dos problemas mais urgentes da atualidade requer apoio financeiro. Essa percepção orientou o relatório Perspectivas para Filantropia Global: O Poder transformador da Doação da Classe Média, do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e Charities Aid Foundation (CAF), lançado em abril.

De acordo com o documento, a próxima década será marcada pela ascensão de bilhões de pessoas à classe média, indivíduos que moram em países de economias emergentes do Hemisfério Sul e que sairiam da condição de pobreza. Projeções apontadas no estudo sugerem que até 2,4 bilhões de pessoas pertenceriam à classe média em 2030 e que seus gastos poderiam quase duplicar dos atuais US$ 34 trilhões para US$ 64 trilhões no mesmo período. Trata-se de uma atualização aprofundada de outra pesquisa da entidade chamada Building Trust in Charitable Giving (Construindo a Confiança em Doações).

O que a pesquisa nos diz é que se esse novo grupo, em termos globais, dedicasse apenas 0,5% de seus gastos para causas sociais, o montante geraria algo em torno de US$ 319 bilhões por ano (cerca de R$ 1 trilhão) em recursos para ajudar as pessoas atendidas pelas OSC. 0,5% é a média de doação dos habitantes da Coreia do Sul e pouco mais de um terço do que as pessoas doam nos EUA (1,44% do PIB). A Índia atinge, com doações, um valor equivalente a 0,37% do PIB.

Os desafios para o Brasil são em proporções continentais também. Para quem registrou o montante aproximado de doação individual em 2015 de R$ 13,7 bilhões – representando apenas 0,23% do PIB -, existe um caminho longo a percorrer. O relatório apontou alguns deles: 1. Para aumentar a cultura de doação no país, as pessoas precisam ter certeza de como o seu dinheiro será utilizado; 2. Mais da metade dos pesquisados que afirmaram isso também disseram que doariam mais se alcançassem uma renda maior; 3. Acima de um terço afirmou que aumentaria a doação se o setor de organizações da sociedade civil fosse mais transparente no país.

Uma das respostas que o documento apresenta para construir a confiança na sociedade civil para incentivar a doação é fomentar continuamente as melhorias no sistema de regulamentação e o acesso a essas informações e, ao mesmo tempo, realizar um trabalho de formação às OSC e aos doadores sobre governança.

Por outro lado, a pesquisa também aponta que é preciso trabalhar tanto para a construção da compreensão do valor da voz da sociedade civil para a boa governança, quanto para construir uma estrutura legal que gere expectativas, direitos e obrigações adequados para ambos os lados do relacionamento. Embora isso seja importante, a chave para proteger a sociedade civil dos ataques é simplesmente aumentar o nível de apoio local comprometido e envolvido com as OSC, mais do que qualquer outra medida.

Os países ocidentais com sociedades civis estabelecidas registram taxas elevadas de doação em todos os níveis da sociedade e, em alguns casos, os menos ricos doam uma proporção maior de sua renda disponível. Isso gera a expectativa de que os ricos deveriam doar mais, segundo o relatório. “Descobrimos que se incentivarmos apenas os ricos a se envolverem em filantropia nos mercados emergentes, possivelmente, seguiremos perdendo grandes oportunidades. Nos países onde há uma cultura de doação muito forte, essa cultura está na classe média. Ou seja, não é tão fácil estabelecer uma cultura de doação que vem de cima para baixo – nós temos que trabalhar muito para fomentar a doação na classe média. As evidências sugerem que incentivar o envolvimento em massa de doações proporcionaria um resultado melhor, fazendo com que a que a sociedade civil reflita a diversidade e o apoio local”, pondera Andrea Wolffenbüttel, Diretora de Comunicação e Relações Institucionais do IDIS.

Com o intuito de contribuir com a promoção de uma cultura global de doação, o documento aponta recomendações para as três esferas envolvidas no tripé cultura de doação, gestão institucional e acesso a recursos:

Os financiadores internacionais devem:

  1. Financiar a expansão e reequipar organizações de infraestrutura;
  2. Financiar organizações locais diretamente para melhorar a prestação de contas e a eficiência de suas ações;
  3. Reconhecer a importância de ajudar as instituições locais a construir um apoio interno sustentável e financiá-las adequadamente.

Os governos devem:

  1. Garantir que as organizações da sociedade civil sejam regulamentadas de maneira justa, consistente e clara;
  2. Facilitar a doação individual e oferecer incentivos à doação onde for possível;
  3. Promover a sociedade civil como uma voz independente na vida pública e respeitar o direito das organizações da sociedade civil de falar sobre questões importantes.

As organizações da sociedade civil devem:

  1. Garantir a boa governança e serem honestas sobre o impacto que provocam, para construir a confiança pública;
  2. Envolver significativamente as comunidades locais na tomada de decisões para que elas detenham o controle sobre a sociedade civil;
  3. Reconhecer e se apoiar em formas tradicionais de doação para criar organizações e uma cultura de doação que trabalhem para valorizar os pontos fortes do contexto local.

Juntamente com o relatório, o IDIS idealizou a campanha Groundwork for Growing Giving (O Poder Transformador da Doação da Classe Média), cujo o foco é na implementação dessas recomendações. “Todos os nossos estudos orientam nossas ações de advocacy e a campanha será uma forma de contribuir para que terceiro setor esteja melhor preparado e, para isso, ele precisa ser mais transparente, saber quais são seus resultados e como receber as doações entre muitos outros desafios”, pontua Wolffenbüttel.

A etapa da pré-campanha será lançada em junho no Festival ABCR 2018. Para saber mais sobre a campanha, visite o endereço https://www.cafonline.org/about-us/campaigns-and-public-affairs/groundwork-for-globalgiving (conteúdo por enquanto somente em inglês).

A contribuição dos grantmakers

Um levantamento entre os associados do Grupo de Iinstitutos Fundações e Empresas – GIFE mostra que em 2016 o total do investimento social privado foi de R$ 2,9 bilhões – deste, 60% foi investido em programas e ações próprios e 21% em doações e patrocínios de iniciativas de terceiros. O número equivale a R$ 595 milhões, 33% menos em comparação com 2014, conforme censo anterior do próprio GIFE.

Embora 78% dos investidores sociais tenham afirmado que pretendem manter ou aumentar os níveis de apoio às OSC, desafios e potenciais se misturam na mesma proporção quando o assunto é o fortalecimento da cultura de doação no país.

Como podemos pensar novas formas de expansão do grantmaking? Quais novas estratégias estão sendo implementadas? Para Inês Lafer, diretora do Instituto Betty e Jacob Lafer, a sensação de pertencimento e reconhecimento, assim como ter clareza do próprio papel na transformação social são elementos que podem mobilizar e fidelizar doações. “Simplicidade na comunicação é outro ponto. A pessoa quer se sentir capaz e não ignorante; se o discurso for muito complexo ele afasta ao invés de atrair apoio. Aquela ideia de que se explicar, dar números, mostrar o aspecto sistêmico do problema vai convencer o interlocutor não é válida. A doação para causas estratégicas pode ser também uma oportunidade de aprendizagem, de conhecimento, de ser visto e se desenvolver ou de conviver com lideranças inspiradoras”, afirma.

O Instituto realizou um estudo, que está em fase de compilação dos dados, para entender qual seria a melhor abordagem para mobilizar recursos para causas estratégicas com um público de profissionais de alta renda. “Tivemos aprendizados significativos. Um deles foi pensar a doação como um produto, como uma marca. Temos que transformar a doação em algo almejável, que a pessoa desejará fazer para se sentir parte de um grupo com o qual ela se identifica. Temos que construir uma ponte entre as nossas causas e uma linguagem mais acessível, uma linguagem também do marketing”, conta.

Lafer revela que a decisão da entidade de se tornar um grantmaker passou pela percepção de que o principal ativo era o recurso financeiro a ser colocado em prol das causas que queriam apoiar, além desejarem ser uma organização enxuta, com pouca operação interna.

Um reforço para entender e ampliar a contribuição dos grantmakers e fortalecer a cultura de doação e temas correlatos está chegando. Foi lançada durante o X Congresso GIFE, em abril, a Rede Temática de Grantmaking que será coordenada pelo Instituto Humanize e pela Fundação Lemann. Acompanhe os próximos passos da Rede Temática de Grantmaking: https://gife.org.br/redes-tematicas/

 

Para saber mais

Relatório Perspectivas para a Filantropia Global: O Poder Transformador da Doação da Classe Média

http://www.idis.org.br/perspectivas-para-a-filantropia-global-o-poder-transformador-da-doacao-da-classe-media/

 

Building Trust in Charitable Giving (Construindo a Confiança em Doações) – em Inglês

https://www.cafonline.org/docs/default-source/about-us-publications/future-world-giving1.pdf?sfvrsn=313ef440_5

 

Pesquisa Doação Brasil

http://www.idis.org.br/pesquisa-doacao-brasil/

 

Guia de melhores ONGs (parceria entre Instituto Doar e Revista Época)

https://melhores.org.br/

 

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