Especialistas apontam tendências e oportunidades para organizações de impacto social em 2018

Graziela Santiago, do GIFE, e Anna Peliano, da Comunitas, apontam caminhos para as organizações no ano.

O país tem um ano intenso pela frente, com diversos debates estabelecidos diante de processos eleitorais, reformas para serem votadas, além da crise econômica e política a ser superada. Isso tudo colocado e um momento em que o Brasil completa 30 anos da sua Constituição, um marco de conquistas de direitos, que se veem ameaçados.

Os atores que atuam para gerar cada vez mais impacto social – sejam eles organizações da sociedade civil, negócios sociais, fundações etc. – e promover transformações neste cenário têm desafios pela frente, mas também muitas oportunidades.

A pesquisa Trust Barometer 2018, que acaba de ser lançada pela Edelman sobre confiança nos setores, por exemplo, aponta que no momento em que a confiança da população no governo cai diante de tantos escândalos, assim como ocorre com a mídia, pela propagação cada vez maior das fakenews (informações falsas), a sociedade passa a valorizar ainda mais o papel das organizações da sociedade civil, assim como o das empresas.

“As ONGs e as empresas podem preencher o papel de fornecer informações confiáveis e soluções para questões sobre as quais as pessoas se preocupam. Nosso estudo começou há 18 anos com foco na confiança das ONGs; hoje, negócios e organizações não-governamentais são vistos igualmente como as instituições que trazem maior esperança para os nossos respondentes”, ressaltou em seu texto na pesquisa Ben Boyd, o presidente da Edelman.

E essa confiança se reflete, inclusive, no aumento de investimento para o campo. O Censo GIFE – principal pesquisa sobre investimento social privado no Brasil – apontou que 39% dos respondentes  planejam aumentar seu nível de apoio a organizações da sociedade civil nos próximos cinco anos.

“Conectamos esse dado ao fato também da ampliação, por exemplo, de 1% para 10% dos respondentes que apontam que apoiam as OSC porque elas defendem causas ou grupos sociais que outros não estão dispostos a apoiar. Os dados começam a apontar uma tendência de valorização e reconhecimento do trabalho e da importância de termos organizações fortalecidas para o tecido social e para a democracia”, comenta Graziela Santiago, gerente de Conhecimento do GIFE.

Os dados levantados não só pelo Censo, mas também pelo BISC – Benchmarking do Investimento Social Corporativo, realizado pela Comunitas e um conjunto selecionado de empresas, podem dar dicas e apontar alguns caminhos e tendências para uma ação cada vez mais fortalecida das organizações de impacto social.

Para trazer luz a essas oportunidades e ajudar na análise dos materiais, a Mobiliza conversou, além de Graziela, com a especialista Anna Peliano, socióloga e coordenadora do BISC, que ajudaram a traçar oportunidades para o ano de 2018. Confira algumas percepções:

  1. Estar disposto a conhecer profundamente o possível investidor/doador – temas de interesse, comunidades de atuação etc. – e ter legitimidade no território pode abrir portas para novas parcerias.

Questionados sobre o porquê de apoiar OSC, os investidores sociais que participaram do Censo GIFE apontaram duas principais razões: 47% porque as organizações da sociedade civil têm legitimidade para atuar com temas ou grupos sociais de interesse e 41% porque elas operacionalizam e implementam programas nos contextos / territórios prioritários.

O censo mostra ainda que o apoio pode ocorrer de diversas maneiras, mas a maioria (58%) afirmou que apoia programas de organizações da sociedade civil, a partir de linhas programáticas pré-estabelecidas e/ou processos de seleção/ editais regulares. O mesmo foi observado no BISC: cerca de dois terços das empresas assinalam estar se aproximando, cada vez mais, das entidades que desenvolvem atividades mais alinhadas aos negócios, amplamente reconhecidas pela sua expertise na sua área de atuação e/ou sediadas no entorno de seus empreendimentos econômicos.

“Percebe-se, assim, a oportunidade de apoio e trabalhos conjuntos para as OSC que conectem suas causas a também temas de interesse apontados pelos investidores, assim como em suas localidades. Ter esse conhecimento prévio parece ser cada vez mais fundamental”, acredita Graziela. “Esse reconhecimento junto às comunidades qualifica as organizações e ajuda muito nesse trabalho em parceria com autonomia”, completa Anna.

  1. É necessário provocar e estabelecer espaços de diálogo para construção conjunta de soluções sociais mais perenes e concretas. É necessário ir além da relação proponente-doador, prestador de serviços ou de ações pontuais.

A pesquisa BISC identificou várias mudanças na relação dos investidores com as organizações ao longo dos dez anos que o estudo vem sendo realizado. Só para se ter ideia, o volume de recursos destinados às organizações sem fins lucrativos oscilou nos últimos anos e, em 2016, ele foi da ordem de R$ 512 milhões, o que representa um aumento de 41% em relação a 2011. Porém, apesar deste aumento no volume de recursos, observou-se uma queda no número de organizações apoiadas. Em 2011, as empresas do grupo BISC apoiaram 1.756 entidades e, em 2016, esse número caiu para menos da metade: 810.

Além disso, em 2016, muda o perfil do financiamento: cresce bastante a proporção das organizações que receberam aportes superiores a R$ 140 mil. Antes um terço delas se encontrava nesse patamar e, em 2016, esse percentual elevou-se para 49%.

Na avaliação de Anna Peliano, esse novo cenário vem a reboque da diminuição de apoios pontuais que ocorriam a muitas OSCs, para uma nova forma de fazer, que inclui de fato o estabelecimento de parcerias, de trabalhos mais estruturados, de médio e longo prazos, o que faz com que os investidores ampliem o investimento, mas direcionem para poucas organizações, justamente aquelas mais próximas, com legitimidade, credibilidade e expertise em suas áreas de atuação.

“Os investidores querem fazer parte do processo, discutir, participar do desenho de projetos mais estruturados. Isso é uma tendência. Então, é importante que as organizações ouçam os possíveis investidores, seus objetivos, e não cheguem com projetos prontos, mas que possam, inclusive, mostrar como sua atuação pode complementar e contribuir com as ações e projetos já desenvolvidos por estas empresas, fundações etc. e ampliar o alcance. As organizações têm que ter conhecimento sobre o que fazem, projetos estruturados, objetivos claros e transparentes, avaliações, e estarem dispostas a ouvir o outro lado, mas sem perder a sua autonomia e aderência à sua missão, claro. Esse respeito tem que ser de ambos os lados. A ideia é dialogar mais”, aposta a coordenadora do BISC.

  1. Alinhar ações a agendas públicas nacionais e internacionais para trazer mais aderência e escala às iniciativas.

As empresas e os investidores sociais estão, cada vez mais, buscando conectar-se com agendas amplas, como, por exemplo, aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que determinam um curso global de ação para acabar com a pobreza, proteger o planeta e garantir que todas as pessoas desfrutem de paz e prosperidade.  A proposta é ser parte integrante de um processo mais amplo de enfrentamento dos problemas nacionais, e globais.

Isso fica evidente, por exemplo, nos dados do Censo GIFE. Segundo a pesquisa, 51% diz que estão alinhando seus programas/projetos aos ODS e 21% diz que usam os ODS, mas não pretendem realizar um alinhamento mais concreto. Os principais ODS que pretendem se engajar são: educação de qualidade, redução das desigualdades, emprego digno e crescimento econômico, e igualdade de gênero.

Para as organizações, que já desenvolvem iniciativas de impacto social, é uma oportunidade para conquistar novos parceiros. E os investidores estão valorizando sim estas conexões. No BISC, por exemplo, entre os principais benefícios decorrentes das parcerias com organizações sem fins lucrativos, dois terços das empresas (66%) consideram que as parcerias contribuem para o alinhamento às políticas públicas – em 2011, apenas 9% delas tinha essa percepção.

Essa é uma tendência, pois dão uma nova dimensão para o investimento e relevância para a ação, ampliando o alcance, a capilaridade e a escala dos projetos sociais privados. Esse movimento está avançando rápido e orientando os investidores a repensar suas práticas”, comenta Anna.

  1. Propor soluções inovadoras para problemas complexos são apostas de todos e urgentes.

Os desafios da sociedade atual são cada vez mais complexos e é preciso criar novas soluções. Segundo Graziela, esse movimento vai além de novas tecnologias, mas que as organizações possam utilizar sua expertise para pensar e propor outros caminhos. Essa é a aposta e uma oportunidade que as organizações de impacto social precisam tomar para si.

E há caminhos para conquistar apoio a esses novos movimentos. O BISC, inclusive, apontou que para o investimento social ter êxito um dos aspectos centrais é justamente que esse investidor seja inovador: “Investir na inovação e na criação de valor compartilhado em todos os elos da sua cadeia, colocando a comunidade em posição estratégica em todas as suas interfaces”, diz uma das recomendações.

O Censo GIFE também buscou nesta edição investigar mais profundamente a atuação dos investidores sociais em negócios de impacto como uma das estratégias utilizadas para o desenvolvimento de suas ações e o alcance de seus objetivos. A pesquisa identificou que 42% dos respondentes já atuam em negócios de impacto social. Dentre os diferentes tipos de investidores, as empresas são as que mais atuam (59%), seguidas dos institutos e fundações familiares (55%).

Leia mais a respeito no artigo: OSC com espírito de start-ups.

  1. Investir em melhorias de processos de governança e transparência continuam sendo aspectos centrais do campo.

Segundo as especialistas, apesar de ser uma pauta não tão nova, há uma constante necessidade de se voltar a ela, pois ainda é um desafio a ser superado no campo, até para as organizações conquistarem mais credibilidade e legitimidade.

De acordo com a pesquisa BISC, as dificuldades identificadas no trabalho conjunto com as organizações não se modificaram ao longo dos anos e elas continuam se concentrando em aspectos como dificuldades de prestação de contas (46%) e despreparo da organização para avaliar os resultados dos projetos (31%). “E isso passa, inclusive, pelo uso de dados. Neste contexto atual de fakenews, as organizações precisam estar atentas a como levantam, processam, produzem e analisam dados. Isso será cada vez mais fundamental”, aponta Graziela Santiago.

OPORTUNIDADES

Vejam algumas dicas de cursos, eventos e plataformas em que estas questões estão colocadas e que o debate pode ser ainda mais ampliado:

Plataformas:

– Mapa das Organizações da Sociedade Civil
Lançado em 2015 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o portal congrega diversas bases de dados sobre cerca de 400 mil OSCs no Brasil e, entre outras informações, aponta características importantes das organizações civis, tais como campo de atuação, número de funcionários, tipos de parceria com entes governamentais, entre outros aspectos.
https://mapaosc.ipea.gov.br/

– Sinapse do GIFE

A biblioteca virtual do GIFE reúne mais de 750 publicações relevantes, nacionais e internacionais sobre investimento social privado, terceiro setor e temas de interesse para o campo. A plataforma foi reformulada e entrou no ar com muitas novidades.
https://sinapse.gife.org.br/

Curso:

– Formação em Impacto Social
Proposta: Pensada especialmente no cenário e no público brasileiro, a formação destina-se à pessoas interessadas em fazer parte da rede de impacto no Brasil, além de promover ações de impacto social sustentável. O curso será composto por um currículo central, que será ministrado por profissionais do Instituto Amani, com foco em inovação, impacto e empreendedorismo social. Além disso, a formação também contará com a participação de especialistas externos, que terão suas aulas divididas em três pilares: “Caminhos para Impactar”; “Ferramentas para Impactar”; e “Eu Impactando”.
Data: a partir de 20 de março
Informações: http://bit.ly/2EaFFE8

Eventos:

Série “O Impacto dos Negócios”
O que é: uma série de encontros promovidos pelo Sense-Lab que se propõe a explorar os modelos sociais e organizacionais emergentes que vêm ao encontro das novas demandas e realidades nascentes.
Data: ao longo do mês de março
Informações: http://bit.ly/2FEAj2o 

Congresso GIFE
O que é: Em 2018, o Congresso chega a sua 10ª edição. Bianual, o evento é referência sobre o tema do investimento social privado e ao longo desses 20 anos reuniu mais de 5 mil pessoas de todos os estados do Brasil e de fora do país para ouvirem e debaterem sobre temas de relevância do setor.
Data: 4 a 6 de abril
Informações: https://congressogife.org.br/2018/

Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica
O que é: Evento que terá duração de quatro dias com a presença de profissionais brasileiros e estrangeiros do terceiro setor para compartilhar conhecimento sobre legislação, contabilidade, comunicação, administração, voluntariado e assistência social.
Data: 10 a 13 de abril
Informações: www.filantropia.ong/fife/programacao

Festival ABCR
O que é: Promovido pela ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos, o festival completa 10 anos em 2018 e terá como tema central: “Sociedade em Movimento: Captar para Transformar”. A proposta será debater sobre os desafios de se captar recursos no contexto atual e as oportunidades existentes. Serão mais de 50 sessões.
Data: 06 a 08 de junho
Informações: http://festivalabcr.org.br/

Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto
O que é: O Fórum é uma iniciativa do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), do Impact Hub e da VOX Capital que visa reunir empreendedores, investidores, aceleradoras, incubadoras, fundações, academia, consultores, organizações da sociedade civil e outros atores relevantes para a construção do campo das Finanças Sociais e Negócios de Impacto.
Data: 06 e 07 de junho
Informações: www.investirparatransformar.org.br

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