2016: o melhor e o pior para a captação de recursos

Não é incomum, especialmente nas redes sociais, ver posts que pedem, com bom humor, o fim deste ano. Para uma boa parte das pessoas, 2016 parece se arrastar e não terminar mais.

A crise política e econômica que assolou o País no último triênio tem deixado marcas também nas organizações sociais. O próximo ano exigirá novas estratégias e o fortalecimento daquelas que, mesmo com a realidade atual, conseguiram sustentar suas causas.

No entanto, nem tudo foi ruim em 2016. Momentos de impasses, como este, acabam por trazer à tona soluções inovadoras e mudanças de rumo ou, até mesmo, de cultura e práticas que não cabem nas crises.

A Mobiliza pediu a cinco especialistas que apontassem o que consideraram pior e melhor na área de captação de recursos este ano.

Todos foram unânimes: a crise econômica pautou a rotina das instituições. Ou seja, elas tiveram de “matar um leão por dia”, além de driblar o pessimismo coletivo gerado por um cenário de incertezas.

“O sucesso da captação de recursos com indivíduos e empresas depende bastante do humor e expectativa das pessoas quanto ao futuro. Como o Brasil vive um momento de grande turbulência, tanto econômica quanto política, isso se reflete enormemente na disposição das pessoas e empresas em doar. É natural ver indicadores, por exemplo,  de novos doadores individuais despencarem em momentos como este. Assim como é comum detectar empresas e doadores de mais alto valor suspenderem ou reduzirem suas estratégias de investimento, esperando por uma recuperação e pela melhora da expectativa no futuro”, afirmou Bruno Benjamim, da Fundação Avina.

Bruno Benjamim, da Avina
Bruno Benjamim, da Avina

 

A crise afetou todo o setor e muitas ONGs, que não estavam preparadas para suportá-la, fecharam as portas ou estão prestes a fazê-lo. Nesse contexto inserem-se, especialmente, as instituições que dependem de uma ou poucas fontes de recursos, como lembrou João Paulo Vergueiro, da ABCR. Além disso, para ele, “a essa dificuldade se somou outra, relacionada às formas de doação: está cada vez mais difícil e caro doar no País. Modalidades bancárias, que ajudavam nisso, como o débito recorrente em conta bancária e os boletos, foram impactadas por medidas do Banco Central e demais bancos, e muitas organizações deixaram de usar esses formatos, perdendo doadores e recursos”.

Flávia Lang, da Ader&Lang, concorda: “Esse é um problema que em 2016 não conseguimos resolver. As ONGs têm investido nos doadores individuais, mas não estão conseguindo o retorno de que precisam. É fundamental encontrar maneiras de diversificar os formatos das doações sem prejuízo às instituições”.

“As mudanças da Nota Fiscal Paulista e a diminuição de recursos incentivados, neste ano, foram dois grandes alertas de que não se pode manter um compromisso com a comunidade atendida (ou a causa defendida) e ser susceptível a mudanças econômicas e legislativas”, reforça Joana Lee Ribeiro Mortari, do Movimento por uma Cultura de Doação e da Acorde. Ela lembra que diante de cenários tão desafiadores como o atual, fica mais evidente a necessidade de construir um conjunto diversificado de esforços para mobilizar recursos, “o famoso plano de captação”.

Joana Mortari, da Acorde
Joana Mortari, da Acorde

 

Junto à crise veio o corte de funcionários que, infelizmente, é comum em fases como esta. “O desemprego impede que muitas pessoas continuem doando”, ressalta Jonas Araújo, da Trackmob, “e a inadimplência aumentou muito, já que vários doadores ultrapassaram o limite do cartão de crédito, normalmente utilizado para concretizar as contribuições mensais”.

As boas notícias

O ano de 2016 teve sua função educadora, de inspirar pessoas e instituições a reverem ações, gerando avanços na área social e o amadurecimento de várias organizações.

Prova disso é que, mesmo com o clima de certo pessimismo, o Brasil avançou no ranking mundial de solidariedade, realizado pela CAF (Charities Aid Foundation). O País subiu 37 posições, alcançando seu melhor resultado desde 2009, nos três indicadores analisados: a parcela de pessoas que doou dinheiro; a que fez trabalho voluntário; a que disse ter ajudado um estranho no mês anterior à pesquisa. “Acredito que esse resultado esteja diretamente relacionado às iniciativas nacionais de fomento à doação, assim como aos esforços contínuos das organizações em promover ações de captação de recursos e doação regular. Devemos continuar trabalhando para que essa posição no ranking se mantenha ou melhore nas próximas aferições e que isso represente, de fato, um aumento do impacto social promovido pelas organizações do terceiro setor”, defende Bruno Benjamim.

“Não tenho dúvidas de que o ano fortaleceu estratégias para captar recursos de pessoas físicas, uma prática até então mais utilizada pelas grandes organizações, que vem sendo aplicada por ONGs de menor porte, especialmente aquelas que tinham como fonte de recursos os investidores externos”, ressalta Flávia Lang. Para ela “há muito terreno a ser explorado na doação individual. Um dos exemplos de que vale a pena focar nisso são os resultados de captação da Médicos Sem Fronteiras, que fechou o ano com 400 mil doadores”.

Flavia Lang, da Ader&Lang
Flavia Lang, da Ader&Lang

João Paulo Vergueiro enumerou vários pontos positivos em 2016, considerando o ano bastante produtivo para o amadurecimento da captação de recursos no País. “Além das tradicionais realizações de eventos como o Festival ABCR e o Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica (Fife), que qualificam as organizações e as tornam melhor preparadas para buscar seu financiamento, nós tivemos também o lançamento da Captamos, a primeira plataforma online brasileira exclusivamente dedicada à disseminação de conhecimento em captação e mobilização de recursos”.

Ele também lembrou a importância do lançamento da pesquisa Doação Brasil, uma iniciativa que reuniu várias instituições, com o objetivo de, finalmente, conhecer os números da doação no País e o perfil do doador brasileiro.

“Saber que nossa população doou quase 14 bilhões de reais em 2015, para as quase 300 mil organizações da sociedade civil, foi uma grande conquista, pois os captadores finalmente têm uma referência sobre a qual trabalhar para incentivar a doação”, celebra.

Outro ponto destacado por João foi o #diadedoar, que, este ano, ampliou o número de parceiros, chegando a mais de 1.200, com ações realizadas em quase todos os Estados. “Na ABCR, 2016 foi um ano de muitas conquistas, refletindo positivamente no setor. Em janeiro, a Associação nomeou o seu primeiro diretor executivo remunerado da história, avançando na sua profissionalização, e, em maio, realizou a primeira edição do Prêmio ABCR, que reconhece e valoriza a excelência em captação de recursos no País, estimulando o aprimoramento contínuo da profissão”, comemora.

João Paulo Vergueiro, da ABCR
João Paulo Vergueiro, da ABCR

 

Joana Mortari destacou o crescimento do mercado intermediário, os prestadores de serviços, uma alternativa para os departamentos de mobilização de recursos e comunicação das ONGs terceirizem alguns de seus esforços. “Além disso, ressalto as plataformas que permitem que organizações menores, ainda sem fôlego para sustentar departamentos e ferramentas próprias, mobilizem recursos, captando doações recorrentes e pontuais. Neste ano, a Acorde conseguiu lançar seu site com ferramenta de captação, mas, nos últimos quatro anos, nós usamos o site da Doe com Paypal para captar doações via cartão de crédito, que funcionou muito bem!”.

O ano que chega ao fim foi marcado também por startups e empresas de ponta focadas na área social, segundo Jonas Araújo. “Há pessoas que querem impactar o mundo positivamente e

Jonas Araújo, da Trackmob
Jonas Araújo, da Trackmob

enxergam o terceiro setor como um segmento promissor. O reflexo disto é que as ONGs terão acesso a uma gama maior de soluções inovadoras e de serviços de qualidade nos próximos anos, alcançando melhores resultados e mais engajamento com menos recursos, ou seja, todos poderão crescer mais!”, afirma.

Novas tecnologias, como a realidade virtual, começaram a despontar em 2016. Para Flavia Lang, “a tendência é que em 2017 ela se fortaleça como estratégia de captação de recursos no Brasil, já que tem alcançado sucesso em outras partes do mundo”.

A Mobiliza Consultoria também acredita que, no próximo ano, a inovação deve ocupar o lugar de antigas práticas, dando às instituições novos formatos, mais profissionais, de gerir e captar recursos.

As crises “machucam”, mas trazem consigo soluções até então impensáveis, fortalecendo as instituições que querem, de fato, sair da zona de conforto e ousar.

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